As bibliotecas das escolas públicas americanas se tornaram palco de uma intensa batalha ideológica, com um crescimento alarmante na proibição de livros. O fenômeno, que já afetou milhares de obras, levanta sérias questões sobre o acesso à informação e a liberdade de expressão para os jovens. Organizações de defesa da liberdade intelectual registram um aumento drástico nas censuras, transformando um debate local em uma questão nacional.
A Associação das Bibliotecas dos Estados Unidos (ALA) reportou que, somente em 2025, 6.588 livros foram censurados em escolas públicas do país. Este número representa um salto impressionante em comparação com a média de 70 obras censuradas anualmente entre 2001 e 2020. O Escritório para a Liberdade Intelectual da ALA destaca que o número real pode ser ainda maior, já que muitas proibições passam despercebidas.
O que antes era uma tendência restrita a grupos conservadores ganhou força e escala, chegando aos legislativos estaduais e federais. A polêmica gira em torno do que seria material inadequado para crianças e adolescentes, com grupos de pais, ativistas e políticos em lados opostos. Conforme informação divulgada pela BBC News Mundo, o debate sobre quem define o que é apropriado para as estantes escolares está mais acirrado do que nunca.
A proibição de livros nas escolas públicas dos Estados Unidos não segue um padrão uniforme, variando de estado para estado e entre distritos escolares. Frequentemente, o processo se inicia com a objeção de um pai ou cidadão, que apresenta uma reclamação à autoridade educacional local. Essa objeção, geralmente, é analisada por um comitê de especialistas, cujo parecer técnico embasa a decisão final de manter ou retirar o livro.
No entanto, nos últimos anos, esse processo tem sido contornado. Em estados como Utah e Carolina do Sul, surgiram listas estaduais de livros proibidos, resultado de leis recentes que visam impedir o acesso a material considerado prejudicial ou pornográfico. Títulos como “O Conto da Aia” de Margaret Atwood e “Pessoas Normais” de Sally Rooney estão entre os banidos nessas listas estaduais.
Um caso emblemático ocorreu no condado de Hillsborough, na Flórida, onde funcionários estaduais pressionaram o superintendente a retirar livros considerados “pornográficos”, como “Me Chame pelo Seu Nome” de André Aciman. A pressão resultou na retirada imediata de dezenas de livros, sem seguir o procedimento habitual de revisão por comitê técnico. A organização Projeto Liberdade para Ler da Flórida criticou a ação, afirmando que a decisão partiu de um comitê estadual, não eleito, que dita as ideias permitidas nas estantes escolares.
O “efeito inibidor”, conhecido em inglês como “chilling effect”, descreve como educadores e bibliotecários, temendo sanções ou escrutínio público, optam por remover ou substituir livros que possam gerar controvérsia. Livros que abordam temas como identidade de gênero, raça, sexualidade e personagens LGBTQIA+ são alvos desproporcionais de censura. Segundo a ALA, cerca de 39% dos títulos questionados em 2025 incluíam histórias de pessoas LGBTQIA+ ou de minorias.
Leis com termos vagos e alarmistas, como “conteúdo sexualmente explícito” e “confusão de gênero”, criam um clima de medo. “Eles recorrem a termos amplos e alarmistas, como ‘conteúdo sexualmente explícito’, ‘pornografia’ ou, mais recentemente, expressões como ‘confusão de gênero’ ou ‘transgênero’, para justificar a censura de um grande número de livros, gerando um clima de medo e efeito inibidor sobre a liberdade de expressão”, explica Gianmarco Antosca, da Coalizão Nacional contra a Censura.
Essa atmosfera leva as escolas a removerem livros preventivamente, para evitar investigações judiciais ou escrutínio público. A declaração de que “em vez de se arriscarem a tomar a decisão equivocada, as escolas preferem primeiro retirar os livros e depois perguntar”, segundo William Johnson, diretor do escritório da PEN América na Flórida, resume a situação.
Organizações conservadoras frequentemente invocam os “direitos dos pais” para justificar a retirada de livros, argumentando que os pais têm a responsabilidade de proteger seus filhos de conteúdos prejudiciais e ideologias confusas. Tina Descovich, da Moms for Liberty, afirma que “os pais têm o direito e a responsabilidade fundamental de garantir que seus filhos sejam protegidos de conteúdos que prejudiquem sua inocência ou promovam ideologias que possam gerar confusão”.
Contudo, dados do Escritório para a Liberdade Intelectual da ALA indicam que 92% das objeções de livros em 2025 foram iniciadas por grupos de pressão e funcionários do governo, não por pais individualmente. Stephana Ferrell, do Projeto Liberdade para Ler da Flórida, reforça que “o movimento, desde o princípio, é liderado por grupos de interesse, com poucos vínculos com o sistema de educação pública”.
Nicole, mãe de quatro filhos, contesta a ideia de que proibir livros defende os direitos dos pais. “Muitas das pessoas que promovem a retirada dos livros afirmam que agem em defesa dos direitos dos pais. Mas, ao proibir livros, eles também estão decidindo o que é melhor para outras crianças que não são seus filhos”, argumenta ela. Para Nicole, a intenção é “controlar o que e como as pessoas aprendem”, usurpando os direitos de outros pais.
As proibições de livros representam uma “janela, um espelho e a capacidade de pensamento crítico sobre o mundo em que elas vivem”, lamenta Nicole. A retirada de obras literárias limita a exposição dos jovens a diferentes realidades e perspectivas, prejudicando seu desenvolvimento intelectual e emocional. O índice da PEN América aponta 62 ações de censura de livros em bibliotecas escolares apenas no condado de Pinellas.
A administração do ex-presidente Joe Biden tentou investigar o fenômeno, mas, sob Donald Trump, o Departamento de Educação desconsiderou as denúncias, qualificando o fenômeno como mito e defendendo a retirada de materiais “inadequados”. Atualmente, um projeto de lei no Congresso americano ameaça retirar financiamento de escolas que “fornecerem ou promoverem livros ou outros materiais que incluam conteúdo de caráter sexual para menores de 18 anos”.
Gianmarco Antosca defende que o propósito da educação é preparar os estudantes para o mundo real, permitindo que explorem ideias e pontos de vista de forma segura. “Os estudantes deveriam ter acesso às ideias que inevitavelmente encontrarão fora da escola”, afirma. Stephana Ferrell conclui que a consequência mais grave é a normalização da ideia de que “evitar controvérsias é mais importante do que expor os estudantes a ideias desafiadoras”, o que enfraquece a defesa das bibliotecas, da literatura e da liberdade de ler.