Em um movimento que resgata a memória e a força do movimento operário brasileiro, o Partido dos Trabalhadores (PT) escolheu a Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, para o lançamento oficial da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva. O local, palco de emblemáticas assembleias sindicais nas décadas de 1970 e 1980, carrega um simbolismo profundo para o partido e para a trajetória do ex-metalúrgico.
O estádio Primeiro de Maio, antes conhecido como Arthur da Costa e Silva, foi o centro nevrálgico das mobilizações que antecederam a fundação do PT e foram cruciais para a redemocratização do país. Agora, quase cinco décadas depois, Lula retorna ao mesmo local, pedindo novamente um voto de confiança, em um ato que visa não só lançar a campanha, mas também “recontar a história” do partido para as novas gerações.
A escolha da Vila Euclides, conforme apurado pela BBC News Brasil, não é aleatória. O bairro e o estádio representam a essência da luta operária que moldou o PT e projetou Lula nacionalmente. O evento também servirá como gravação para peças da propaganda eleitoral e lançamento de um jingle, marcando o início de uma disputa eleitoral acirrada.
A Vila Euclides, situada em São Bernardo do Campo, tem suas raízes fincadas na década de 1920, quando a região começava a se industrializar. O desenvolvimento do setor automobilístico, impulsionado por políticas governamentais a partir dos anos 1950, atraiu milhares de trabalhadores de diversas partes do Brasil, especialmente do Nordeste e de Minas Gerais, em busca de melhores condições de vida e trabalho.
No entanto, a promessa de prosperidade muitas vezes se chocava com a realidade. A rápida urbanização e o crescimento populacional, que fez São Bernardo saltar de 81,2 mil habitantes em 1960 para 425,6 mil em 1980, levaram a um crescimento desordenado e ao surgimento de favelas. Nesse contexto, a Vila Euclides se tornou um ponto estratégico.
O estádio, inicialmente um campo de futebol da Fiação e Tecelagem Elni, foi cedido pela prefeitura para sediar as assembleias do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. O local, com capacidade para 12,5 mil pessoas nas arquibancadas e com o gramado amplo, permitia a reunião de dezenas de milhares de trabalhadores, oferecendo um espaço seguro para as discussões e para a proteção contra a repressão do regime militar.
Em meados de 1979, o então jovem Luiz Inácio Lula da Silva discursava para multidões no estádio, pedindo um voto de confiança para a recuperação do sindicato, então sob intervenção do governo militar. Eram tempos de greves intensas e de forte repressão, mas também de grande mobilização.
O sociólogo Ricardo Antunes, especialista em movimento operário, destaca que o ABC Paulista concentrava um grande número de operários em poucas fábricas, o que facilitava a organização e a mobilização. As assembleias na Vila Euclides, muitas vezes com 40 a 70 mil pessoas, segundo o DOPS, ou até mais de cem mil, segundo o sindicato, eram um marco dessa luta.
Sem sistema de som, a voz de Lula ecoava de um palanque improvisado, e a mensagem era repassada de boca em boca, alcançando todos os presentes. O aposentado Geovaldo Gomes dos Santos, que migrou da Bahia para São Bernardo nos anos 1970, recorda a atmosfera de esperança e a sensação de que era possível mudar a situação de arrocho salarial e falta de democracia.
Quatro décadas e meia após o auge das greves, a Vila Euclides e o entorno do estádio passaram por profundas transformações. A indústria automobilística, que já foi o motor da região, encolheu significativamente. Montadoras históricas, como a Ford, fecharam suas portas, e a proporção de empregos industriais em São Bernardo caiu de 42,4% em 2002 para 26,8% em 2021.
O perfil da cidade também mudou, com um eleitorado mais envelhecido e a predominância do setor de serviços e comércio. Embora o PT tenha perdido a prefeitura em 2016, a cidade ainda demonstra forte ligação com Lula, que recebeu 53,83% dos votos em 2022.
O retorno ao estádio da Vila Euclides, para Geovaldo e tantos outros, representa a revisita a um passado de luta e a esperança de um futuro onde as conquistas sociais e trabalhistas sejam preservadas. A memória daquele tempo, de acordo com ele, “está muito viva na gente”.
O lançamento da campanha de Lula na Vila Euclides ocorre no mesmo dia em que aliados de Jair Bolsonaro organizam um comício em Copacabana, no Rio de Janeiro. Essa simultaneidade de eventos em locais simbólicos para cada campo político evidencia a forte polarização e a disputa de forças entre os dois principais candidatos.
As pesquisas eleitorais indicam uma disputa acirrada, com margens pequenas de diferença nas intenções de voto. Segundo o agregador da BBC News Brasil, Lula aparece com 46% das intenções de voto contra 42% de Bolsonaro em simulação de segundo turno. O ato na Vila Euclides busca, portanto, mobilizar a militância e reforçar a conexão do PT com suas origens.