A União Europeia se prepara para uma reunião de emergência nesta terça-feira (4/8) para debater a grave crise migratória em Ceuta, um enclave espanhol na costa norte da África. A convocação surge em meio a fortes desentendimentos entre a Espanha e outras nações europeias sobre como lidar com a situação.
Cerca de 60 mil migrantes atravessaram de Marrocos para Ceuta, um número alarmante que gerou reações diversas no bloco. A Espanha condenou veementemente o que chamou de reação “egoísta, polarizadora e ilegal” de alguns parceiros europeus, especialmente após a Itália suspender o acordo Schengen de livre circulação com o país, medida apoiada por Finlândia e Dinamarca.
As autoridades espanholas afirmam que a situação em Ceuta já foi praticamente normalizada, com a maioria dos migrantes retornando e o comércio local reabrindo. No entanto, a crise deixou um rastro de tragédia, com pelo menos 67 mortes confirmadas decorrentes das perigosas travessias. Conforme informação divulgada pela União Europeia, a carta conjunta de 22 Estados-membros aponta preocupações com “ameaças híbridas para criar a percepção de que a entrada ilegal na União Europeia é possível”.
A carta conjunta, enviada por 22 países membros da UE, incluindo Países Baixos, Finlândia e Bélgica, apela por uma ação coordenada e pelo reforço das fronteiras externas do bloco. Os signatários expressaram receio de que a percepção de que a entrada ilegal é viável possa incentivar novas tentativas, minando a confiança na política comum de migração e gerando repercussões para todos os Estados-membros.
O documento foi dirigido ao presidente da UE, António Costa, à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e ao Taoiseach (primeiro-ministro) da Irlanda, Michael Martin, cujo país detém a presidência rotativa do Conselho da União Europeia. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, em carta separada a Von der Leyen, manifestou “sérias preocupações” com a postura de alguns governos europeus.
Sánchez assegurou que o governo espanhol restabeleceu totalmente o controle da fronteira em Ceuta e impediu qualquer “movimento não autorizado em direção à Europa continental” em menos de 48 horas. Ele criticou governos europeus que, em vez de oferecer apoio e solidariedade, optaram por atacar a Espanha, alegando que tais reações são motivadas por “preconceito, notícias falsas, ignorância ou interesses políticos”. O premiê espanhol ressaltou ainda que Ceuta não faz parte do espaço Schengen.
O ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, detalhou em coletiva de imprensa que a situação em Ceuta retornou à normalidade. Ele mencionou o trabalho em andamento para instalar uma barreira inflável com o objetivo de impedir a imigração ilegal por via marítima. A Espanha tem adotado uma política de imigração relativamente flexível, com planos recentes para legalizar 500 mil imigrantes indocumentados e integrá-los ao mercado de trabalho.
A crise em Ceuta trouxe à tona o debate sobre o Espaço Schengen, o acordo que aboliu os controles de fronteira em 29 países europeus, abrangendo mais de 450 milhões de pessoas. A suspensão do acordo pela Itália por um mês, em relação à Espanha, gerou preocupação, com Finlândia, França e Portugal também considerando a implementação de controles de fronteira. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, chegou a defender que a UE “considere todas as opções, incluindo a suspensão da cooperação Schengen”.
Ursula von der Leyen classificou as imagens de Ceuta como “inaceitáveis” e declarou nas redes sociais: “Não podemos permitir que ninguém entre em nossa União sem cumprir nossas regras.” O chanceler alemão, Friedrich Merz, exigiu que Marrocos “receba de volta os imigrantes ilegais imediatamente”. Por sua vez, o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, informou ter conversado com Sánchez e que o Reino Unido estava oferecendo “toda a ajuda possível”.
Ceuta, juntamente com Melilla, representa a única fronteira terrestre da União Europeia com a África. O enclave é um ponto de passagem histórico para migrantes que buscam chegar à Europa, muitas vezes arriscando a vida em travessias perigosas, como nadar por vários quilômetros. O fluxo migratório deste ano é considerado extraordinário, mas Ceuta já foi palco de crises semelhantes, como em 2021, quando cerca de 8.000 pessoas entraram no local em poucos dias, intensificando tensões diplomáticas com Marrocos.
O Marrocos tem enfrentado protestos de jovens da “Geração Z” que demandam melhores oportunidades e serviços públicos. A situação em Ceuta reflete desafios complexos na gestão de fluxos migratórios e nas relações diplomáticas entre a Europa e a África.