Após cinco anos detido na prisão de segurança máxima de Guanajay, o renomado artista cubano Luis Manuel Otero Alcântara desembarcou em Miami, nos Estados Unidos, com uma sensação incomum: a ausência de vigilância e controle. O artista, figura proeminente da oposição cubana, cumpriu pena por desrespeito aos símbolos pátrios, desacato e distúrbios públicos, mas sua luta pela liberdade e expressão artística o acompanhava há anos.
Otero Alcântara, um dos fundadores do Movimento San Isidro, utilizou a arte como ferramenta de protesto contra o regime. Suas performances, como carregar a bandeira cubana por um mês e criar o Museu da Dissidência, o tornaram um alvo do governo. Sua prisão mais recente ocorreu durante os históricos protestos de julho de 2021. Declarado prisioneiro de consciência pela Anistia Internacional e reconhecido pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, sua libertação foi condicionada ao exílio, com apoio da Embaixada americana.
Em entrevista à BBC News Mundo, Otero Alcântara compartilhou suas experiências na prisão, a dificuldade do exílio e seus planos futuros. A entrevista, editada para clareza, oferece um vislumbre da resiliência e determinação do artista em sua busca contínua por um Cuba livre. Conforme informado pela BBC News Mundo, o artista detalha os motivos de sua prisão e como a arte se tornou seu refúgio e instrumento de resistência.
Luis Manuel Otero Alcântara explicou que sua condenação de cinco anos de prisão foi uma consequência direta do exercício de sua liberdade de expressão e de sua tentativa de promover mudanças em Cuba. “Sou artista visual, artista plástico, e coloquei a arte a serviço das mudanças de que Cuba precisa”, declarou o artista, ressaltando que a ditadura cubana não tolera críticas ou propostas de transformação social.
Ele descreveu um período de intensa perseguição, com mais de 90 idas ao calabouço em poucos anos. “Éramos artistas do bairro e inspirávamos as pessoas a dizer: ‘Se ele pode, eu também posso’. E tudo aquilo foi construindo um espaço cívico, o que acabou desembocando no dia 11 de julho de 2021”, relatou. A obra da bandeira cubana, com a qual ele conviveu intensamente por um mês, foi um dos pretextos utilizados para sua prisão, sendo acusado de desrespeito aos símbolos pátrios, desacato e escândalo público.
O julgamento de Otero Alcântara foi descrito como “horrível, uma espécie de circo, uma encenação”. A sentença de cinco anos já estava definida, sem que os envolvidos tivessem poder de decisão. O momento mais doloroso foi a entrada de sua família, que o abalou profundamente. “Eu tentava suportar para não demonstrar à ditadura que estava me destruindo, mas somos seres humanos: choramos, sofremos e temos família”, confessou.
A prisão, para ele, tornou-se um “bastão de luta, o símbolo da luta, o símbolo da resistência, o símbolo da injustiça”. Apesar da dificuldade de calcular a perda de sua juventude, ele nunca deixou de lutar. “Fiquei por cinco anos, poderia ter ficado 20”, afirmou com convicção.
A cela de segurança máxima em Guanajay, onde vivia com mais três pessoas em um espaço de aproximadamente 12m², com camas de cimento e banheiro compartilhado, era um ambiente de constante desconforto. O calor, o frio, a fumaça, os odores e a convivência forçada geravam ansiedade e depressão.
Mesmo encarcerado, Otero Alcântara continuou a criar e a protestar. Ele desenvolveu obras como a venda de cada dia de sua pena, simbolizando a apropriação de seu tempo pela ditadura. Greves de fome, como uma que durou cerca de 48 dias, e a criação de séries de pinturas em celas de castigo foram suas formas de resistência. “Eles confiscaram minhas obras, mas nunca mais me levaram para lá. Talvez tenham entendido que não conseguiriam me calar”, disse.
Desde o início, as autoridades cubanas ofereceram a ele a opção de exílio como única forma de sair da prisão. Inicialmente, Otero Alcântara recusou, mas com o tempo compreendeu que, de fora, teria mais possibilidades de promover mudanças. “Em uma ditadura, você gasta 70% ou 80% do tempo lidando com a repressão: detenções, vigilância, cortes de internet, confisco de telefones e registros da sua casa. Sobra muito pouco espaço para criar”, explicou.
Aceitar o exílio foi uma decisão difícil, mas sentiu que sua missão em Cuba estava cumprida. “De fora, consigo dedicar muito mais tempo a criar e buscar novas formas de prejudicar a ditadura.” Contudo, ele descreve o exílio como “extremamente cruel”, sentindo a dor de não poder ver seu filho e deixar para trás sua família. “O exílio é outra forma de violência política. Eu não me salvei. Saí para outro tipo de violência.”
A alimentação nas prisões cubanas reflete a crise do país. Otero Alcântara dependia da comida enviada por amigos e familiares, que faziam longas jornadas para levar mantimentos. “Na prisão, a comida enviada por uma família tinha algo de especial. Mesmo que fosse arroz com ovo, havia um tempero a mais: o amor”, relembrou.
Ele recebeu tratamento diferenciado, com mais comida em seu corredor, onde ficavam os condenados à prisão perpétua, que protestavam caso a quantidade fosse insuficiente. A segurança do Estado buscava mantê-lo “relativamente tranquilo” para que não protestasse e pudesse, um dia, contar sua história. Sua visibilidade também ajudou a evitar abusos contra outros presos, mas ele não recebeu reduções de pena e foi isolado, com um preso vigiando-o constantemente.
O isolamento foi o aspecto mais difícil da prisão. As visitas eram restritas a poucos familiares, e qualquer aproximação com outros presos resultava na transferência destes. “Certa vez, depois de quatro anos sem ver outras mulheres que não fossem familiares ou guardas, permitiram que eu assistisse a uma atividade com detentas de outro centro. Eu dancei e brinquei como uma criança”, relatou.
Sua relação com os guardas mudou ao perceber que muitos eram jovens de origens humildes, prometidos a um futuro melhor que não se concretizou. “Vestir um uniforme não significa necessariamente estar de acordo com a ditadura. Descobri que, de diferentes formas, todos éramos vítimas de uma cúpula que mantém o país sequestrado”, concluiu.
O conhecimento sobre o que acontecia em Cuba era obtido pela televisão, conversas com familiares e, principalmente, com novos presos que chegavam, trazendo relatos da sociedade fraturada. “Em cinco anos, muitas pessoas passaram por mim e assim me mantive conectado à realidade do país”, disse.
Otero Alcântara conseguiu tirar de Cuba cerca de 4 mil pinturas, que ele deseja expor para que as pessoas sintam o “odor da prisão” que elas carregam. “Quero que as obras sejam conservadas e não terminem apenas na parede de um colecionador. Também gostaria de expor em lugares importantes e fazer com que meu trabalho atinja alto valor”, afirmou.
Sua arte continuará dedicada a “libertar Cuba daquela torturante ditadura”, mas de um novo ponto de vista, conectando a cultura cubana ao mundo e promovendo o debate democrático. “Quero poder dizer a eles: ‘Muito bem, você é de esquerda e eu o respeito; ou você é de direita e eu o respeito. Mas, em Cuba, está acontecendo isto'”, declarou.
A liberdade, para ele, não é um conceito único, mas sim “as liberdades”: de se expressar, ter acesso a serviços básicos e dignidade. “Ainda estou aprendendo. Passei cinco anos vestido de cinza, falando baixo e sem poder me mover. Aqui, posso caminhar, pegar um automóvel e falar por telefone sem contar os minutos”, concluiu.