A recente decisão de Michelle Bolsonaro de se afastar do PL Mulher não é um evento isolado, mas sim o reflexo de uma crise familiar e política que se arrasta há tempos. Essa disputa interna pode ter consequências significativas não apenas para a candidatura de Flávio Bolsonaro, mas para o futuro do bolsonarismo como um todo, segundo Marco Antonio Carvalho Teixeira, cientista político e professor da EAESP-FGV.
A crise foi intensificada por divergências sobre alianças políticas em nível local, especialmente no Ceará. Enquanto Flávio Bolsonaro defendia o apoio a Ciro Gomes (PSDB) para o governo do estado, Michelle expressou forte oposição, criticando a aliança com alguém que considerava “contra o maior líder da direita”.
As declarações de Michelle, que relembrou falas de Ciro Gomes contra a família Bolsonaro, não foram bem recebidas pelos filhos do ex-presidente. Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro criticaram a postura de Michelle, que chegou a ser chamada de autoritária. A situação se agravou com uma ofensiva digital coordenada contra ela, vinda de figuras influentes do bolsonarismo nos Estados Unidos, como Paulo Figueiredo, que fez comentários questionáveis sobre o voto feminino.
Michelle Bolsonaro almejava uma candidatura diferente para o Senado no Ceará, apoiando a vereadora Priscila Costa. No entanto, seus planos foram preteridos em favor de outras alianças, o que contribuiu para o seu afastamento. A percepção de ter sido “ignorada e escanteada” pelos filhos de Bolsonaro, especialmente após Flávio ser ungido candidato, foi um gatilho para a escalada da crise.
O cientista político destaca que a saída de Michelle do PL seria um “estrago sem precedentes” para a campanha de Flávio. Ela é vista como virtual senadora eleita pelo Distrito Federal e sua figura é importante para a imagem de “família, Deus, pátria” que o grupo tenta projetar. Um rompimento público com ela seria um “tiro de artilharia muito pesado” contra a candidatura.
A crise ocorre em um momento delicado para Flávio Bolsonaro, cujas pesquisas de intenção de voto não são favoráveis. Um levantamento AtlasIntel/Bloomberg indicou queda em seu apoio, enquanto o presidente Lula aparece em vantagem. Em um cenário hipotético onde Michelle substituísse Flávio, a distância entre os candidatos aumentaria ainda mais.
Teixeira aponta que a dificuldade de Flávio em conquistar o eleitorado feminino pode se agravar. O histórico de ofensas da família Bolsonaro a mulheres, como o caso de Jair Bolsonaro com a deputada Maria do Rosário, contribui para essa rejeição. Para o cientista, a única alternativa seria Flávio ter uma mulher como vice, mas encontrar uma candidata que agregue e dialogue com diferentes setores do eleitorado é um desafio.
A briga interna fragmenta a base bolsonarista, dividindo o que Teixeira chama de “bolha”. Ele ressalta que essa “bolha” patriarcal e masculina tem dificuldade em ver a mulher como protagonista na política, e que a polarização do debate pode não trazer ganhos para Michelle dentro desse grupo, mas sim para o eleitor independente.
O principal beneficiário indireto dessa crise, segundo o professor, é o governo Lula. O conflito entre Michelle e Flávio tirou de cena o desgaste em torno do caso do senador Jaques Wagner, que envolvia alegações de recebimento de benefícios em troca de apoio político. Ao se manter à margem da disputa interna da direita, Lula pode “jogar parado”, permitindo que a oposição se enfraqueça.
Se a crise se prolongar, a estratégia para Lula seria “não se meter nessa encrenca e deixar que a própria direita tenha comportamento autofágico”, evitando assim atrair holofotes para si e permitindo que a divisão interna enfraqueça seus oponentes.