As equipes de resgate na Venezuela estão em uma corrida contra o tempo, enfrentando o que o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, descreveu como “horas críticas” para encontrar sobreviventes dos dois terremotos que abalaram o país esta semana. O número de mortos já ultrapassou a marca de 1.450 pessoas, com 3.150 feridos, segundo dados oficiais divulgados neste domingo (28/06).
A magnitude da tragédia é imensa, com a Unicef estimando que 1,8 milhão de pessoas necessitam de ajuda humanitária, incluindo 680 mil crianças. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calculou os danos físicos diretos em US$ 6,7 bilhões, equivalentes a cerca de 6% do PIB venezuelano.
A janela de 72 horas após os terremotos, considerada crucial para o resgate de vidas, já passou. Especialistas alertam que as chances de encontrar sobreviventes diminuem drasticamente após este período, embora o acesso a água e alimentos possa prolongar essa possibilidade. O governo venezuelano, contudo, mantém a esperança, com a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, anunciando que 33 pessoas foram resgatadas durante o fim de semana e agradecendo o esforço dos socorristas internacionais. Conforme informação divulgada pelas autoridades, o evento é considerado o mais trágico em 123 anos na Venezuela.
Jorge Rodríguez informou que 774 prédios desabaram ou foram severamente afetados pelos tremores, resultando no desalojamento de 12.721 pessoas. Moradores e familiares vasculham os escombros desesperadamente, mas relatos indicam que o apoio internacional, embora presente, ainda não é suficiente para agilizar as buscas. O aeroporto de Valência tem recebido dezenas de equipes de resgate de diversos países, enquanto mais de 430 réplicas foram registradas desde os sismos iniciais, aumentando o perigo.
A ONU estima que até 50 mil pessoas possam estar desaparecidas, com um site independente apontando para mais de 54 mil pessoas não contatadas. O secretário-geral adjunto para Assuntos Humanitários da ONU, Tom Fletcher, destacou a chegada de equipes de resgate de várias nações, incluindo Rússia, Ucrânia, Estados Unidos, Europa e Oriente Médio, em um esforço conjunto onde “a política fica totalmente em segundo plano”.
O acesso a áreas como o estado de La Guaira, uma das mais afetadas, permaneceu restrito devido à destruição e à necessidade de priorizar a passagem de veículos de emergência. Moradores locais relataram a falta de maquinário pesado para o resgate de sobreviventes. A Cruz Vermelha Internacional aponta que estradas bloqueadas e a destruição generalizada dificultam os esforços, forçando equipes a utilizarem motocicletas para se locomover em meio ao caos.
Fortes tremores secundários continuam a ameaçar estruturas danificadas, tornando as operações de resgate ainda mais perigosas. Apesar do cenário sombrio, relatos de sobrevivência e humanidade emergem, como o de um funcionário da Cruz Vermelha que resgatou sua família “com as próprias mãos” e pessoas cantando para acalmar vítimas presas nos escombros.
Os terremotos, com magnitudes de 7,2 e 7,5, ocorreram em rápida sucessão, sendo um deles o mais forte registrado no país desde 1900. A profundidade superficial dos sismos (menos de 30 km) contribuiu para a intensidade dos tremores e o potencial de danos. O desastre também atingiu cidadãos estrangeiros, com registros de mortes de portugueses, chineses, espanhóis, italianos e brasileiros, cujas famílias recebem assistência consular.
A resposta global tem sido descrita como “muito boa”, com a mobilização de 39 equipes de resgate da ONU e quase 2 mil socorristas internacionais. No entanto, o financiamento para operações de resgate enfrenta desafios devido à perda de quase metade do orçamento de ajuda humanitária da ONU nos últimos 18 meses. A situação exige um esforço contínuo e coordenado para atender às necessidades urgentes da população venezuelana afetada.