Nadia Marcinko, ex-namorada de Jeffrey Epstein, encontra-se em uma posição complexa. Apontada como potencial cúmplice em crimes sexuais, ela alega ser vítima de abusos e coerção por parte do financista. Sua situação é agravada pelo acordo de imunidade judicial que possui, mas que agora está sob escrutínio.
Durante os sete anos em que foi a principal parceira de Epstein, Marcinko o visitou frequentemente na prisão e, posteriormente, atuou como piloto assistente em seu avião particular. Sua história, até então pouco conhecida pelo público, pode vir à tona com as investigações em andamento.
Apesar de nunca ter sido formalmente acusada, depoimentos de jovens vítimas apontam a participação de Marcinko em abusos. Seus advogados defendem que ela é uma vítima, enquanto novas investigações buscam entender a linha tênue entre vítima e cúmplice. Conforme apurado pela BBC, que entrevistou pessoas próximas e analisou e-mails trocados entre ambos, a relação era marcada por controle e manipulação por parte de Epstein.
Nascida Nadia Marcinkova na Eslováquia, Marcinko conheceu Jeffrey Epstein em Nova York em 2003, aos 18 anos, através de Jean-Luc Brunel, amigo próximo do financista. Na época, ela trabalhava como modelo em Paris e Brunel providenciou seu visto para os Estados Unidos. A relação entre Marcinko e Epstein rapidamente se intensificou, apesar da grande diferença de idade e poder.
E-mails revelam que Epstein exercia um controle severo sobre Marcinko, ditando aspectos de sua vida, como dieta, vestuário e até mesmo cirurgias plásticas. Em uma troca de mensagens, Epstein expressava exigências sobre tarefas domésticas e leitura, demonstrando sua natureza dominadora.
Marcinko relatou a investigadores que Epstein era fisicamente violento, chegando a sufocá-la e jogá-la escada abaixo. Essa narrativa, presente em um documento divulgado pelo Departamento de Justiça dos EUA, corrobora as alegações de abuso, embora muitos trechos do relato estejam censurados.
As investigações também apontam que Epstein esperava que Marcinko recrutasse outras mulheres para satisfazer seus desejos sexuais. Em um e-mail de 2006, ela demonstra desconforto com a situação, mas se dispõe a encontrar garotas para Epstein em Nova York, sugerindo que ela tinha conhecimento das preferências sexuais dele por mulheres jovens.
Embora os arquivos não contenham evidências de que ela tenha apresentado menores de idade a Epstein, o recrutamento de adultas para fins de exploração sexual pode configurar tráfico. Marcinko expressou em e-mails seu desconforto com a dependência financeira de Epstein, afirmando que sua vida girava em torno dele. Essa dependência começou a diminuir quando ela se tornou piloto, área na qual Epstein a incentivou e financiou.
Apesar de buscar independência como piloto, Marcinko continuou próxima a Epstein, atuando como copiloto em seu jato particular. Em 2015, Epstein concordou em dobrar qualquer renda que ela obtivesse de outras fontes, evidenciando a persistência da influência dele em sua vida.
Em 2018, Marcinko começou a cooperar com o FBI, e no ano seguinte, Epstein foi preso novamente. O FBI apoiou o pedido de permanência de Marcinko nos EUA, declarando que ela foi “recrutada, abrigada e obtida por Jeffrey Epstein e outros para fins de uma relação sexual coercitiva”.
No entanto, a imunidade concedida a Marcinko e outras três mulheres em um acordo judicial de 2008 está sendo questionada. Parlamentares americanos, como a congressista Anna Paulina Luna, argumentam que elas se envolveram no tráfico de menores e foram cúmplices de Epstein.
A questão de se uma vítima de coerção sexual também pode ser considerada cúmplice é complexa. Especialistas em direito de tráfico humano, como Bridgette Carr, professora da Universidade de Michigan, destacam a importância de avaliar se a vítima continuou cometendo crimes após escapar do controle do agressor e se era razoável que ela acreditasse que o agressor ainda exercia poder sobre ela.
Apesar de ter cooperado com o FBI, Marcinko desapareceu da vida pública após a morte de Epstein. Relatos indicam que ela tem se dedicado à sua cura e pretende, futuramente, falar sobre sua condição de vítima para ajudar outros sobreviventes.
Um e-mail de 2012, escrito por Marcinko, revela sua angústia com os padrões de Epstein para seduzir e manipular outras mulheres, expressando culpa por saber o destino delas. A complexidade de sua situação levanta importantes questões sobre a responsabilidade e a capacidade de escolha em relacionamentos marcados por abuso e controle extremo.