O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou suas projeções econômicas globais e destaca um cenário de incerteza, mas com um ponto de atenção especial para o Brasil. Apesar da desaceleração global prevista, a instituição elevou a expectativa de crescimento para o país em 2026.
A principal razão para essa revisão positiva do FMI para o Brasil está diretamente ligada aos desdobramentos da guerra no Oriente Médio e seu impacto nos preços internacionais de energia e commodities. O conflito, que gera apreensão global, paradoxalmente, traz um benefício pontual para a economia brasileira.
Este cenário contrasta com as previsões anteriores do FMI, que focavam mais em riscos comerciais. Agora, o foco se volta para choques geopolíticos, com efeitos diretos sobre o fornecimento de energia e as cadeias de suprimentos globais. Conforme informação divulgada pelo FMI em seu relatório Panorama Econômico Mundial (WEO) de abril, o Brasil deve expandir 1,9% em 2026, acima da estimativa anterior.
A análise do FMI aponta que a guerra no Oriente Médio, uma região crucial para a produção e transporte de petróleo, tende a gerar interrupções no fornecimento e aumentar a incerteza nos mercados. Como resultado, o Fundo projeta uma subida relevante nos preços internacionais de energia, com o petróleo em destaque para 2026.
Esse aumento nos custos de energia se propaga pela economia mundial, encarecendo transportes, produção industrial e alimentos, especialmente em países importadores. O FMI ressalta que economias que dependem da importação de commodities são as mais afetadas, enfrentando inflação mais alta e desvalorização cambial.
Nesse contexto, o Brasil emerge como um caso particular. Diferentemente de muitas nações, o país é considerado pelo FMI um exportador líquido de energia, vendendo mais petróleo e derivados do que compra. Essa condição resulta em um aumento nas receitas de exportação quando os preços internacionais sobem.
Esse fenômeno melhora os chamados “termos de troca”, que é a relação entre os preços de exportação e importação. Segundo o próprio relatório do FMI, a guerra deve gerar um “pequeno efeito líquido positivo” sobre o Brasil em 2026, impulsionando o crescimento em cerca de 0,2 ponto percentual.
O FMI, no entanto, enfatiza que esse benefício é modesto e tende a se dissipar. Os impactos negativos globais da guerra, como a desaceleração econômica mundial, acabam por reduzir a demanda por exportações brasileiras.
Adicionalmente, o aumento nos custos de insumos, como fertilizantes, que estão ligados ao mercado internacional, pressiona a produção doméstica. Condições financeiras globais mais restritivas, com juros mais altos, também podem limitar investimentos e o consumo no Brasil.
Por esses motivos, o FMI prevê que o efeito positivo observado em 2026 pode ser revertido. Em 2027, esses fatores adversos devem prevalecer, levando a uma redução do crescimento brasileiro em comparação com projeções anteriores, segundo o relatório.
O pano de fundo dessa dinâmica é um cenário global mais incerto. O FMI avalia que a guerra interrompeu uma trajetória de crescimento relativamente estável e introduziu novos riscos. Em cenários mais adversos, com conflito prolongado e preços de petróleo acima de US$ 100 por barril, o crescimento global poderia cair significativamente, aproximando-se de uma recessão.
A análise do FMI também destaca que o impacto da guerra varia entre os países, dependendo de fatores como serem exportadores ou importadores de energia, a exposição a choques externos e a capacidade de resposta econômica. No caso brasileiro, a combinação de exportações de commodities, reservas internacionais robustas e menor dependência de dívida externa em moeda estrangeira ajuda a amortecer o impacto inicial do choque, tornando os riscos mais administráveis no curto prazo.