A inteligência artificial, ao recriar fotos em estilo anos 80, tem gerado imagens vibrantes, com cabelos volumosos e roupas extravagantes que viralizaram nas redes sociais. Mas essa percepção, muitas vezes exagerada pela IA, tem um fundo de verdade e reflete um período histórico complexo.
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam que essa estética exuberante surgiu como uma reação às crises globais e à repressão de décadas anteriores. Era uma explosão de liberdade em contraste com tempos difíceis.
A professora e pesquisadora em design, Francisco Homem de Melo, aponta que os anos 70 foram marcados por regimes ditatoriais em diversas partes do mundo, criando um sentimento de asfixia. A década de 1980, então, representou uma espécie de “liberação” cultural e visual.
Enquanto o mundo real enfrentava a Guerra Fria, o apartheid na África do Sul, ditaduras militares na América Latina e a crise do HIV/AIDS, o universo da televisão e da música explodia em cores e extravagância. Programas infantis como os de Xuxa e Bozo apresentavam cenários vibrantes e figurinos chamativos.
A extravagância não se limitava às crianças. Apresentadores como Gugu Liberato e Chacrinha promoviam shows com muita energia e plateias animadas. A música também refletia essa tendência, com artistas como os Menudos arrastando multidões de adolescentes com visual ousado, e Ney Matogrosso radicalizando sua performance com trajes inusitados.
Ícones globais como Madonna e Michael Jackson também foram fundamentais, com clipes e figurinos que quebravam barreiras e definiam a estética da década. Essa produção cultural ocorria mesmo em países como o Brasil, que vivia sob regime militar, demonstrando a força da arte como forma de expressão e resistência.
No campo do design, o movimento pós-modernista questionou a ideia de que tudo precisava ser funcional e discreto. O grupo italiano Memphis, por exemplo, criou móveis e objetos com cores vibrantes, formas inusitadas e materiais que remetiam a brinquedos, desafiando o “mau gosto” kitsch.
No Reino Unido, em meio à dureza do governo de Margaret Thatcher, a música pop britânica floresceu com uma forte identidade visual. Artistas como David Bowie influenciaram gerações com sua ousadia em explorar gêneros e personas, abrindo caminho para bandas como Duran Duran, Culture Club e Eurythmics.
O professor Francisco Homem de Melo destaca que, no Brasil, essa mudança comportamental se manifestou principalmente na música, influenciando a televisão. Bandas de pop rock cariocas, como Barão Vermelho e Blitz, responderam à repressão não com protestos explícitos, mas com o rompimento de costumes e comportamentos conservadores.
O jornalista Zeca Camargo, que participou do lançamento da MTV no Brasil, atribui parte da estética extravagante à democratização da produção de vídeo com a chegada do videocassete. A facilidade de gravar e editar, embora limitada em efeitos, permitiu a experimentação com cores e formas geométricas.
“Quando todo mundo pode fazer, cada um escolhe sua estética, e a liberdade é colorida”, afirma Camargo. Essa ruptura também se estendeu à moda, com estilistas como Jean Paul Gaultier, Thierry Mugler e Giorgio Armani criando peças geométricas e estruturadas que se tornaram símbolos da década, em contraste com o “quiet luxury” atual.
O filósofo Fredric Jameson via a estética pós-moderna como ligada ao capitalismo tardio e a uma “nova cultura da imagem”, onde a aparência ganhava valor comercial em um mercado saturado. Cores, formas e embalagens eram cruciais para diferenciar produtos.
Embora Jameson expressasse desconfiança com a “nova falta de profundidade” cultural, para o professor Homem de Melo, separar arte e mercado é complexo. Ele cita a poesia marginal dos anos 70, produzida e vendida fora dos circuitos tradicionais, como exemplo dessa integração.
A influência desses poetas na música dos anos 80, com parcerias em letras de músicas de artistas como Ritchie e Blitz, demonstra como a criatividade e o mercado se entrelaçavam. Mesmo movimentos como o punk, com seus logotipos icônicos, possuíam uma dimensão mercadológica, mostrando que “a questão mercadológica era inescapável”, segundo Chico.