A decisão do governo Donald Trump de revogar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, gerou ampla cobertura na imprensa internacional. A medida, anunciada na terça-feira (04/08), é vista como mais um episódio na crescente tensão entre Washington e Brasília, evidenciando um complexo cenário diplomático.
A ação americana foi uma resposta à demora do Brasil em aprovar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez. Embora o governo brasileiro não tivesse a intenção de bloquear a indicação, os Estados Unidos anunciaram o nome antes de formalizar a solicitação de aprovação, uma prática que contraria a praxe diplomática estabelecida.
A imprensa internacional tem destacado a complexidade das relações bilaterais, com análises que apontam para uma disputa que vai além da questão do embaixador. A reportagem do Washington Post, por exemplo, descreve o impasse como “o mais recente ponto de tensão em uma disputa crescente entre os EUA e o maior e mais rico país da América Latina”. A matéria cita um funcionário do Departamento de Estado americano que, sob condição de anonimato, questionou a “abordagem de confronto” dos EUA, sugerindo que a postura brasileira em relação a Trump pode fortalecer a posição política do presidente Lula internamente.
O jornal americano New York Times ressaltou que o cancelamento do visto é “o mais recente episódio de divergência entre dois governos que passaram o último ano oscilando entre o confronto e a distensão”. A publicação lembrou que a aprovação de nomes indicados para embaixadores antes de qualquer anúncio público é uma “tradição diplomática de longa data observada pela maioria dos países”.
Segundo o New York Times, a conduta dos EUA foi interpretada no Brasil como uma “grave desfeita diplomática que agravou as relações já desgastadas entre as duas nações”, conforme relatou uma autoridade brasileira de alto escalão que pediu anonimato. Essa percepção de desrespeito diplomático contribui para o aprofundamento da crise.
A agência de notícias Bloomberg entrevistou uma autoridade americana de alto escalão que, também sem se identificar, afirmou que os Estados Unidos não estão expulsando a embaixadora Viotti e que seu visto será restabelecido assim que o Brasil aprovar Daniel Perez para o cargo. Essa declaração busca amenizar a percepção de um rompimento total, mas não dissipa as tensões.
A Bloomberg também destacou que as tensões entre as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental se acirraram desde que os EUA impuseram tarifas de 25% sobre diversos produtos brasileiros em julho, alegando práticas comerciais desleais. Essa medida econômica já havia criado um ambiente de atrito.
O Wall Street Journal também dedicou atenção à deterioração das relações. A publicação apontou que a disputa ocorre em um momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva acusou Washington de interferir nas eleições brasileiras de outubro, enquanto o governo Trump alega que autoridades brasileiras têm visado injustamente conservadores e restringido a liberdade de expressão. Essa troca de acusações eleva o nível da disputa.
O jornal financeiro britânico Financial Times observou que a crise bilateral “eclodiu há mais de um ano, quando Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil em uma tentativa fracassada de fazer com que as acusações de conspiração golpista contra Jair Bolsonaro fossem retiradas”. Essa informação contextualiza a origem das tarifas e a percepção de interferência.
O jornal britânico The Guardian lembrou que os governos Trump e Lula já divergiram em outros pontos, como em questões referentes à Venezuela, Cuba e o papel dos EUA na região. O Guardian destacou que Trump interveio repetidamente em disputas políticas na América Latina, enquanto Lula fez da soberania nacional um tema central de sua campanha, evidenciando visões distintas sobre a política externa.
A rede americana CBS News recordou que a disputa sobre embaixadores surge após o Brasil negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA, acusados por Brasília de tentar interferir nas eleições de outubro ao questionar a integridade do sistema de votação do país. O governo americano nega essas acusações, demonstrando a complexidade e a reciprocidade das ações diplomáticas recentes.