A tentação está sempre no bolso, piscando e vibrando. Para muitos, o smartphone se tornou uma extensão do corpo, mas essa conveniência pode evoluir para um vício preocupante. Casos como o de Marios, que dedicava até 14 horas diárias ao celular, revelam a gravidade do problema.
Essa compulsão, muitas vezes impulsionada pela solidão ou pela busca incessante por dopamina em redes sociais e notificações, está levando pessoas a buscarem ajuda profissional. A dependência digital já é uma realidade que preocupa especialistas e muda a forma como interagimos com o mundo.
A pesquisa da Deloitte aponta que 70% dos entrevistados sentem que passam tempo demais em seus telefones. Um estudo do UK Addiction Treatment Centres (UKAT) revelou que um em cada três clientes tratados para dependência de drogas também apresentava dependência de celular, um aumento significativo em poucos anos. Conforme informações divulgadas por esses centros, a dependência digital está se tornando um problema cada vez mais comum.
Especialistas explicam que o cérebro humano possui um sistema de recompensa que é ativado por estímulos prazerosos. No caso dos smartphones, notificações, curtidas e novas informações liberam dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e à motivação. Com o tempo, a necessidade por esses estímulos pode se tornar excessiva.
Kelly Watson, terapeuta-chefe do centro Steps Together, explica que a liberação de dopamina ocorre a cada notificação ou interação online. Para algumas pessoas, essa busca por gratificação instantânea se intensifica, levando horas ou até dias a serem consumidos pelo mundo digital, desassociando-as da realidade.
Marios, um personal trainer de Londres, relata que passava mais de 14 horas diárias no celular, com o Instagram sendo o principal vilão. Ele descreve a sensação como ter “o próprio traficante no bolso”. Atualmente, ele frequenta um curso de terapia para lidar com essa compulsão, que ele acredita ser agravada pela solidão.
James, de 48 anos, buscou tratamento para alcoolismo, mas descobriu que sua dependência digital também estava descontrolada. Após perder o emprego, seus dias se resumiam a navegar em redes sociais e sites de notícias. Ele conta que a necessidade de verificar curtidas e comentários o mantinha “refém” do mundo online, sem que houvesse mais prazer nisso.
Para combater o vício em tecnologia, surgiram grupos de apoio como o Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA), inspirado nos Alcoólicos Anônimos. Jenny, uma das participantes, conta que chegou a passar dias sem dormir ou comer adequadamente devido ao uso excessivo.
“Eu perdia partes da minha vida”, afirma Jenny, que precisou pedir a amigos e familiares que trancassem seus dispositivos durante a abstinência. Ela descreve a sensação de “morrer” se não estivesse consumindo conteúdo digital. Após anos buscando ajuda, ela encontrou no ITAA o caminho para a recuperação e, há cinco anos, não consome conteúdo digital excessivamente.
Tom, outro membro do ITAA, relata ter perdido meses de sua vida para o uso de telas, chegando a consumir conteúdo por 10 horas seguidas, combinando música, YouTube, redes sociais e jogos. O vício o levou à beira do suicídio, mas hoje ele reconstrói sua vida com atividades físicas e sociais.
A psicoterapeuta Hilda Burke, autora do livro “Phone Addiction Workbook”, recomenda a autoanálise para identificar os gatilhos do vício. Perguntas como “o que estava acontecendo naquele dia?” ou “eu estava esperando uma resposta?” podem ajudar a entender o comportamento.
Burke sugere buscar atividades alternativas para lidar com o desconforto, como ligar para um amigo, correr ou ler um livro, em vez de recorrer ao celular. Ela também enfatiza a importância de não sentir culpa, mas sim focar em como lidar com a situação de forma diferente no futuro.
Empresas de tecnologia também têm implementado recursos para monitorar e restringir o tempo de tela, auxiliando os usuários a quebrar o ciclo viciante. Marios, por exemplo, está esperançoso com sua terapia e, apesar de ainda pegar o telefone por impulso, tem conseguido estabelecer limites diários.
“Todos os dias, estabeleço a intenção de não usá-lo tanto e isso está fazendo diferença”, diz Marios. “E, a cada dia, estou lentamente começando a aproveitar as coisas novamente. É possível, tenho certeza.” A jornada para o equilíbrio digital é desafiadora, mas com consciência e busca por ajuda, a recuperação é uma realidade.