Um pôster de filme com um papel de parede amarelo pode parecer inofensivo, mas para milhões, ele evoca um sentimento de pavor. Este é o visual de Backrooms, o filme de terror que se tornou um dos maiores sucessos de 2026, atraindo um público fascinado pelo terror psicológico e pela atmosfera inquietante, em vez de sustos convencionais.
O conceito de Backrooms se refere a espaços abandonados e sinistros, labirintos sem fim que evocam a sensação de estarmos perdidos em zonas de transição. O que começou como uma imagem postada anonimamente em 2019 no fórum 4chan, com a premissa de que um passo em falso poderia nos jogar para fora da realidade, rapidamente se transformou em um fenômeno cultural.
A postagem original descrevia o lugar como um pesadelo sensorial: “o cheiro de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o zumbido incessante das luzes fluorescentes no máximo e aproximadamente 600 milhões de quilômetros quadrados de salas vazias”. A advertência final, “Que Deus te ajude se você ouvir alguma coisa rondando por perto, porque pode apostar que ela já te ouviu”, selou o destino do conceito.
O salto para a fama aconteceu com a criação de uma minissérie no YouTube pelo então adolescente Kane Parsons. Utilizando o software Blender, Parsons deu vida aos Backrooms de maneira impressionante, superando as limitações de um orçamento limitado. Sua série acumulou mais de 200 milhões de visualizações, chamando a atenção do estúdio A24, conhecido por filmes de terror aclamados como “A Substância”.
Agora com 20 anos, Parsons se tornou o diretor mais jovem da história da A24 e liderou a adaptação cinematográfica de Backrooms. O filme, com um orçamento modesto de US$ 10 milhões, arrecadou mais de US$ 100 milhões em sua primeira semana, provando o poder do conceito e da visão do jovem diretor. Parsons aconselha com sombria sinceridade: “Antes de mais nada, faça as pazes com o lugar, porque eu não gosto de dar falsas esperanças.”
O objetivo de Parsons era transpor a atmosfera desolada e infernal dos Backrooms para as telonas, mantendo a essência de sua série. Ele se entusiasmou com a oportunidade de usar um orçamento de Hollywood para aprofundar a narrativa e conferir uma “fisicalidade real” ao mundo, garantindo que o filme se diferenciasse da produção original do YouTube. Para isso, a equipe construiu um cenário de 2,8 mil metros quadrados, fiel aos projetos digitais de Parsons.
A estética remete diretamente ao primeiro vídeo de Parsons no YouTube, “Found Footage”, que apresentou imagens granuladas e tremidas de um escritório sinistro. Essa abordagem visual, segundo Parsons, permite “conectar mais profundamente com os personagens” e intensificar a experiência imersiva do espectador nos Backrooms.
A adaptação de Backrooms, escrita por Will Soodik, utiliza o conceito para explorar temas de saúde mental. O filme acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor frustrado que se vê preso nos Backrooms, um espaço que se alimenta de seus traumas não resolvidos. A narrativa se aprofunda na ideia de espaços liminares, ou de transição, que provocam um medo real e instintivo.
Meredith Banasiak, especialista em neurociência e arquitetura, explica que corredores e portas podem desencadear o “efeito de porta”, confundindo nosso cérebro e fazendo com que memórias se fundam. “Quando os espaços começam a se fundir, nossa maneira de lembrar também começa a se fundir”, afirma Banasiak. O filme Backrooms eleva essa ideia a um extremo, tornando-se um símbolo físico de memórias que “se dissolvem em si mesmas”. Estudos indicam que sobreviventes de traumas frequentemente acham esses espaços desafiadores, o que ressoa com a experiência dos personagens nos Backrooms.
O sucesso de Backrooms se estende para além do cinema. Um fórum no Reddit com mais de 350 mil inscritos discute o aspecto “profundamente existencial” do conceito, focando mais na incerteza do que em monstros. O TikTok ostenta mais de 30 bilhões de visualizações em vídeos sobre Backrooms, evidenciando a popularidade do cenário inspirado nos anos 90 entre a Geração Z.
O fenômeno também invadiu o mundo dos videogames, com títulos gratuitos e experiências em plataformas como Steam e Roblox. A pesquisadora Gunseli Yalcinkaya sugere que a nostalgia por memórias e espaços pré-internet, aliada ao isolamento da pandemia de COVID-19, atrai os jovens para conceitos como Backrooms. “Já existe a sensação de que a realidade está falhando, nada mais parece real”, observa Yalcinkaya, destacando a insatisfação com uma realidade cada vez mais mediada por telas.
A ascensão de Backrooms de um viral da internet a um sucesso de bilheteria representa uma “mudança radical” em Hollywood, segundo Matthew Frank, autor da newsletter Crowd Pleaser. Executivos buscam talentos e públicos na cultura online, como demonstrado pelo produtor executivo Chris White, que descobriu o trabalho de Parsons através de seu filho adolescente.
Outros cineastas jovens, como Curry Barker, também estão fazendo a transição do online para o cinema com seus filmes de terror. Os estúdios se beneficiam de cineastas que já possuem um público estabelecido, um diferencial em um mercado dominado pelo streaming. “Para o público, Backrooms tem o apelo de ser uma propriedade intelectual nascida na internet”, conclui Frank.
Apesar do foco da imprensa em sua juventude, Kane Parsons afirma que sua dedicação “totalmente obsessiva” compensou qualquer falta de experiência. Ele e Hollywood encontraram nos Backrooms um universo rico e perturbador, cujas profundezas ainda estão sendo exploradas. A questão permanece: será que é possível escapar dos Backrooms? A resposta, talvez, seja impossível.