Um anúncio de 1916 em Nova York, promovendo a primeira clínica de controle de natalidade dos Estados Unidos, trazia a pergunta: “Mães! Você tem condição financeira de ter uma família grande?” A iniciativa, liderada por Margaret Sanger, enfrentou a ilegalidade e a polêmica da época, resultando no fechamento da clínica e na prisão de sua fundadora. Contudo, décadas depois, o trabalho de Sanger transformou o planejamento familiar globalmente, lhe rendendo o título de “mãe do controle de natalidade”.
Apesar de sua influência inegável no desenvolvimento da pílula anticoncepcional, o legado de Margaret Sanger é marcado por controvérsias. Suas associações com o movimento eugênico, que defendia a superioridade genética de certos grupos, levantam acusações de racismo. Especialistas como Sanjam Ahluwalia, professora de história, ressaltam a complexidade de sua figura, afirmando que “o legado de Sanger é realmente misto” e que “cancelar alguém como Sanger é muito simplista”.
A história de Margaret Sanger, que nasceu em 1879 em Nova York, é marcada por uma infância pobre, sendo a sexta de onze filhos. Sua mãe enfrentou 18 gestações, evidenciando as dificuldades da época. Como enfermeira, Sanger testemunhou mortes por complicações na gravidez e os perigos de abortos clandestinos, o que a impulsionou a lutar contra as leis restritivas, como as leis de Comstock, que proibiam a disseminação de informações e dispositivos contraceptivos.
A forte oposição da Igreja Católica, que considerava a contracepção um pecado, também foi um obstáculo significativo. Em 1914, Sanger publicou “The Woman Rebel”, defendendo o direito ao controle de natalidade, o que a levou a fugir para a Inglaterra para evitar a prisão. Lá, ela foi influenciada pelas ideias neomalthusianas, que pregavam o controle populacional para garantir a sustentabilidade dos recursos. Sanger, no entanto, adaptou essa visão, argumentando que o controle de natalidade era essencial para a paz e a prevenção da escassez de alimentos, como aponta a historiadora Caroline Rusterholz.
Ao retornar aos EUA, Margaret Sanger fundou a primeira clínica de controle de natalidade em uma área de Nova York habitada por imigrantes pobres. A iniciativa, contudo, durou apenas alguns dias antes de ser invadida e Sanger ser presa. Em 1917, após ser presa novamente, ela foi a julgamento em um caso de grande repercussão. Condenada a 30 dias de prisão, Sanger optou pela detenção, onde continuou a disseminar informações sobre controle de natalidade entre as presidiárias. Sua irmã também enfrentou a prisão e realizou greve de fome em apoio, conforme relata a biógrafa Ellen Chesler.
Apesar da condenação, o caso abriu um precedente: os médicos poderiam receitar anticoncepcionais por razões médicas. Paralelamente às batalhas judiciais, Sanger enfrentou tragédias pessoais, como a morte de sua filha Peggy em 1915. Ela se casou novamente em 1922 com o magnata do petróleo James Noah H. Slee, que se tornou um importante financiador de seu movimento.
Na busca por apoio, Margaret Sanger se aliou a grupos com ideologias questionáveis para os padrões atuais, como a Sociedade Eugênica. A eugenia, definida como a “teoria cientificamente imprecisa de que os humanos podem ser melhorados por meio da criação seletiva de populações”, era debatida sem grande oposição antes do Holocausto. Sanger, embora visasse combater a pobreza, endossou medidas eugênicas, como a esterilização de pessoas com deficiência, o que é criticado hoje.
A biógrafa Ellen Chesler, no entanto, defende que Sanger formou sua própria visão, distinta dos eugenistas clássicos, pois buscava que “todas as mulheres tivessem menos filhos”, independentemente de classe ou raça. Em suas viagens pelo mundo nas décadas de 1920 e 1930, promovendo o controle de natalidade em países como China, Japão, Coreia e Índia, Sanger expressou em termos eugênicos o desejo de “levar aos mais pobres e aos menos dotados biologicamente o conhecimento do controle de natalidade”.
Frustrada com a ineficácia dos métodos contraceptivos existentes, Sanger sonhava com uma “pílula mágica” que facilitasse o controle de natalidade. Em 1939, ela iniciou a busca por essa solução, contando com o financiamento da ativista Katharine McCormick e a colaboração do cientista Gregory Pincus. Após uma década de pesquisa e testes, que incluíram mulheres em Porto Rico e no Haiti em meados da década de 1950, a pílula anticoncepcional estava pronta. Contudo, esses testes, realizados em hospitais psiquiátricos e favelas, levantaram questões sobre consentimento, com muitas mulheres “não sabendo o que estavam tomando”, como aponta Elaine Tyler.
Em 1965, a pílula foi disponibilizada para mulheres casadas nos EUA, e em 1972, para todas as mulheres. O sucesso da pílula, que hoje é utilizada por mais de 150 milhões de mulheres em todo o mundo, foi visto por Sanger antes de seu falecimento em 1966. Seu legado, no entanto, continua a ser debatido, especialmente em relação ao “Projeto Negro”, que visava levar informações de controle de natalidade para comunidades negras nos EUA, mas foi criticado por nacionalistas negros e ativistas antiaborto.
Apesar das controvérsias, Margaret Sanger lançou as bases para o programa Planned Parenthood, um dos maiores serviços de saúde sexual e reprodutiva dos Estados Unidos, consolidando a pílula como um dos métodos contraceptivos mais utilizados globalmente, ao lado da esterilização e da camisinha.