Por mais de oito décadas, o paradeiro de um prisioneiro de guerra soviético, conhecido apenas como Tom, permaneceu um mistério. Ele escapou dos nazistas nas Ilhas do Canal da Mancha e viveu escondido com uma família local durante o restante da Segunda Guerra Mundial. Esta história, que parecia destinada a se perder no tempo, ganhou um desfecho emocionante graças a uma investigação da BBC.
Tom era um entre cerca de 2 mil prisioneiros e trabalhadores forçados soviéticos levados para a ilha de Jersey para construir fortificações nazistas. As condições nos campos eram brutais, como relata o diário de Tom, onde descreve jornadas de trabalho exaustivas e punições severas. Sua fuga representou um ato de coragem extrema, tanto para ele quanto para aqueles que o ajudaram.
Após a libertação, Tom e outros prisioneiros sobreviventes foram enviados de volta para a União Soviética. Ele prometeu manter contato, mas o silêncio se instalou, deixando a família que o acolheu sem notícias. Agora, a BBC desvendou o destino de Tom e encontrou seus descendentes no Uzbequistão, um final surpreendente para uma história de guerra e sobrevivência.
Exausto e faminto, Tom bateu à porta de John e Phyllis Le Breton. Apesar dos riscos iminentes, a família o acolheu, salvando sua vida. As condições nos campos nazistas eram desumanas. Tom descreveu em seu diário: “Nós quebrávamos rochas na pedreira, das seis horas da manhã às seis da noite. Nossa comida consistia de sopa ao meio-dia e uma porção muito magra de pão e um pouco de manteiga na hora do chá. Não tínhamos café da manhã.”
As punições eram severas: “Pelas menores razões, apanhávamos brutalmente. E, se não conseguíssemos trabalhar, ficávamos sem comida e apanhávamos de novo, eles nunca acreditavam que estávamos doentes.” Tom viveu escondido com os Le Breton por mais de dois anos, em constante perigo. A história de Louisa Gould, que abrigou outro soldado soviético e foi morta em um campo de concentração, evidenciava a crueldade da ocupação.
A confiança entre Tom e os Le Breton era tamanha que ele participava da vida familiar, lendo para as crianças e brincando com elas. Dulcie, filha do casal, hoje com 90 anos, guarda memórias afetuosas: “Nosso querido tio Tom, nós o amamos muito. Ele faz parte das minhas memórias da guerra e sua foto ainda está na minha cabeceira.” No entanto, o que aconteceu com ele após a guerra sempre a intrigou.
Após a libertação das Ilhas do Canal em maio de 1945, Tom e outros soviéticos sobreviventes foram enviados de volta para a URSS. Três cartas chegaram a Jersey durante sua viagem de retorno pela Europa, mas depois, o silêncio. Ex-prisioneiros de guerra soviéticos frequentemente enfrentavam interrogatórios e suspeitas por parte das autoridades soviéticas, que viam sua captura como um possível sinal de deslealdade.
Muitos eram rotulados como não confiáveis, enfrentando dificuldades para conseguir trabalho e vivendo sob constante suspeita. Alguns eram condenados a campos de trabalho forçado. Mesmo após a morte de Stalin, o estigma para esses ex-prisioneiros de guerra demorou a desaparecer. A dificuldade em identificar Tom era agravada pelo fato de ele ter assinado suas cartas como “Bokijon”, sem que seu nome completo ou origem exata fossem conhecidos pelos Le Breton ou pelos historiadores locais.
A equipe da BBC News Russa iniciou uma longa pesquisa em arquivos soviéticos e de guerra. A dificuldade em decifrar a grafia correta do nome de Tom em russo, idioma dos documentos oficiais, adicionou um desafio extra. Após analisar dezenas de registros e centenas de variações, a pesquisa se concentrou em detalhes do diário de Tom, indicando que ele teria cerca de 30 anos em 1941, possivelmente lutou na Ucrânia e poderia ter origens na Ásia Central.
A investigação levou a um provável resultado: Bokejon Akramov, nascido em 1910 e recrutado em Namangan, no atual Uzbequistão. A BBC News Russa encontrou um registro indicando que, décadas após seu retorno, Akramov recebeu a Ordem da Guerra Patriótica, e o mais importante, um endereço residencial. Uma equipe da BBC News Uzbequistão viajou até Namangan para verificar o local.
Em Namangan, um homem atendeu a BBC em sua casa, perguntando: “Por que você tem fotos do meu avô? De onde elas vieram?” Era Shamsiddin Ahunbayev, neto de Bokejon Akramov. Ao ouvir a história por trás das fotografias, Ahunbayev se emocionou às lágrimas. A família Akramov relata que Bokejon raramente falava sobre suas experiências na guerra, mas sempre recusava empregos qualificados, optando por trabalhos mais simples, como jardineiro.
Bokejon Akramov faleceu em 1996, deixando para trás uma família que o descreve como tendo tido uma vida longa e feliz. A BBC facilitou um encontro virtual entre a família de Akramov e Dulcie Le Breton. “Querida Dulcie, agradecemos à sua família pela sua coragem e bondade”, disse Shamsiddin Ahunbayev. “Nosso avô só conseguiu sobreviver à guerra e nos dar a vida graças a vocês.” Dulcie respondeu: “Meus pais fizeram aquilo simplesmente porque era o certo a fazer.”
Dulcie Le Breton expressou o desejo de que mais histórias como a de Tom fossem conhecidas e lembradas, destacando que muitos em Jersey ajudaram soldados soviéticos. Em reconhecimento à bravura e compaixão de John e Phyllis Le Breton, as autoridades uzbeques decidiram conceder-lhes postumamente a Ordem da Amizade, uma das mais altas distinções nacionais, pela sua “coragem e compaixão”.