O aroma de frango refogado com coentro, cenoura e batata preenche a casa, transformando-se em uma nutritiva papinha. Ester Emanuelly, de 1 ano e meio, saboreia a refeição com alegria, enquanto sua irmã mais velha, Sophia Emanuelly, de 10 anos, se alimenta por uma sonda. Essa rotina, marcada por desafios, é a realidade de Ianka Mikaelle, 28 anos, que superou o abandono do pai de Sophia e a síndrome congênita do vírus da zika.
Sophia nasceu em 2016, em meio à epidemia de zika, com microcefalia. Na época, Ianka, com 17 anos, foi deixada pelo companheiro, que expressou nojo e desprezo. Acompanhamos a trajetória de mãe e filha desde o nascimento, e hoje, reencontramos uma família renovada e cheia de esperança.
A história de Ianka e Sophia é um testemunho de força. A luta diária, os cuidados intensivos e o amor inabalável moldaram uma nova perspectiva de vida. A celebração dos 10 anos de Sophia, com festa e carinho, reforça a ideia de que cada dia é, de fato, uma vitória. Conforme Ianka relata, a conquista dessa década superou as previsões médicas mais pessimistas, e a família agora celebra novas conquistas e a chegada de novos membros. A informação é do g1.
A comemoração dos 10 anos de Sophia foi planejada com esmero por Ianka. Uma festa em tons de lavanda, escolhida por simbolizar serenidade e pureza, reuniu docinhos, balões e um vestido de princesa. “Eu nunca deixei passar nenhum aniversário em branco, porque cada dia é uma vitória para a gente”, afirma Ianka.
A expectativa para os 10 anos era imensa, especialmente porque os médicos inicialmente não davam chances de Sophia nascer viva. “Eu dizia, ‘Meu Deus, Sophia, tu vai fazer 10 anos, vai fazer uma década já de vida!'”, comemora a mãe.
Apesar das vitórias, Ianka confessa que a situação atual é de constante apreensão. “Porque, apesar de já fazer 10 anos, a gente vive todos os dias achando que vai ser o último.” O medo se intensifica com a perda de amigos e conhecidos na mesma geração de Sophia, um lembrete doloroso da fragilidade da vida.
O desejo de aumentar a família surgiu após um pesadelo em que Ianka perdia Sophia. “Eu acordei muito assustada e decidi que a família estava pronta para crescer de novo”, relembra.
Ianka conheceu Vitor Francisco de Lima, 27 anos, pelo Instagram. A afinidade pelos exercícios físicos os aproximou, e após cinco meses de conversas online, Vitor decidiu mudar de São Paulo para Campina Grande, na Paraíba, para conhecer Ianka e seus filhos.
“Até que foi uma loucura que a gente fez”, diz Ianka, referindo-se à decisão de Vitor de abandonar tudo e à dela de acolher alguém que ainda não conhecia pessoalmente. A fé e a certeza de que daria certo foram os pilares dessa união.
Vitor, que se casou com Ianka em dezembro de 2023, adotou Sophia imediatamente como filha. “Eu olhei Sophia, pronto. Era minha filha. Eu me apaixonei logo por Sophia. Ela é mais do que uma filha”, emociona-se Vitor, que participa ativamente dos cuidados diários.
A vida da família mudou significativamente com a entrada em vigor do PL 6064/23, que prevê indenização e pensão vitalícia para famílias de crianças com síndrome congênita associada ao vírus da zika. Ianka recebeu a indenização de R$ 50 mil e agora conta com uma pensão mensal que equivale ao teto da Previdência.
“Com a indenização chegando, eu pude pensar em coisas que jamais pude dar para Sophia, porque eu nunca pude trabalhar”, afirma Ianka. A ajuda financeira permitiu que a família se dedicasse a um negócio caseiro de bolos e doces e a reformas na casa.
A família também recebeu uma casa do programa Minha Casa, Minha Vida. Atualmente, Ianka está reformando o imóvel para ampliar o quarto de dormir e adaptar um espaço para a fisioterapia de Sophia, que tem escoliose acentuada.
Apesar das conquistas, Ianka lamenta que outras mães em situações semelhantes tenham o benefício negado. Segundo o INSS, 1.889 famílias já receberam indenizações e 846 aguardam decisão, enquanto 1.850 recebem a pensão vitalícia. O INSS esclarece que os benefícios podem ser negados por não atenderem aos requisitos legais, mas que recursos e novos pedidos são possíveis.
As novas gestações de Ianka, de Ester e Efraim, não vieram sem apreensão. “O zika ficou como um tormento para todas as mães, né? A cada ultrassom, eu ficava supernervosa”, conta.
Ao longo da última década, Ianka conseguiu superar diversas dificuldades de Sophia, como a cirurgia para alimentação direta pelo estômago e o uso de um aparelho para evitar apneia do sono. No entanto, a escoliose da menina agrava-se com o tempo, dificultando sua locomoção e exigindo o auxílio de Vitor para tarefas como banho e transporte.
Apesar das adversidades, a vida de Sophia é repleta de pequenas alegrias. Ela adora observar o céu e ouvir hinos religiosos no quintal. Mesmo sem falar ou andar, Sophia demonstra sentir o carinho ao seu redor, reagindo com sorrisos e olhares expressivos.
A chegada de Ester trouxe ainda mais vivacidade para a casa. “Quando a Ester chegou, Sophia só fazia rir”, conta Ianka. A interação entre as irmãs, com Ester cutucando Sophia e fazendo-a rir, é um dos momentos mais felizes da família.
Ianka, que já enfrentou julgamentos por não ter feito aborto e por querer ter mais filhos, defende sua decisão: “Sophia está sendo cuidada e amada do mesmo jeito, eu acho que até melhor do que antes, porque agora tem Ester que anima a casa.” A chegada de Efraim completa a família, prometendo ainda mais alegria e movimento para a vida de Sophia.
“Eu quero continuar a ser uma boa mãe pra Sophia, e ser uma boa mãe para meus outros filhos. Ter forças, né. Acho que nasci para isso”, conclui Ianka, transbordando amor e determinação.