Aos 23 anos, Amanda Mustard embarcou em uma jornada pessoal e dolorosa para desvendar a verdade sobre seu avô, William Flickinger. O que ela descobriu foi um padrão perturbador de abuso sexual contra inúmeras crianças e mulheres, tanto dentro quanto fora de sua família.
O resultado dessa investigação minuciosa se transformou no documentário da HBO, “Bela Foto, Bela Vida” (Great Photo, Lovely Life). A obra mergulha nas profundezas sombrias de uma história familiar marcada por segredos e traumas.
Mustard relata à BBC News Mundo que a experiência a fez perceber o quão distorcida era a noção de “normalidade” em sua própria casa. Ela descobriu como segredos não abordados podem “apodrecer as raízes da árvore genealógica durante gerações”, conforme divulgado pela BBC News Mundo.
William Flickinger, avô de Amanda, exercia a profissão de quiropraxista, o que lhe conferia acesso físico a crianças e mulheres. No início dos anos 1980, ele teve sua licença profissional revogada devido a má conduta, por abusar de seus pacientes. A BBC News Mundo apurou que Flickinger era um agressor sexual registrado, cujas vítimas incluíam crianças e adultos.
Apesar de ter sido preso em 1992, Flickinger cumpriu apenas dois anos e meio de uma sentença de quatro anos. Conforme relatado pela BBC News Mundo, ele cometeu abusos durante toda a sua vida adulta, escapando da justiça repetidas vezes devido a “uma enorme cadeia de falhas institucionais”.
Amanda descreve seu avô como um homem “muito carismático, manipulador e encantador”. Ela, que nasceu nos anos 1990 e não o conhecia intimamente, sentia uma distância que a auxiliou na produção do filme. Flickinger se beneficiou de privilégios, possivelmente devido à influência de seu pai nas décadas de 1950, 60 e 70, o que pode ter contribuído para que ele “se safasse de muitas coisas”.
Embora não possa afirmar formalmente que ele era psicopata, Mustard observa que ele preenchia “todos os critérios”. As interações familiares eram marcadas por um sentimento de desconforto e pela expectativa de manter uma fachada, enviando cartões e presentes para o avô e a avó, sobre quem Amanda sentia “bastante conflito” por sua decisão de permanecer com ele.
A linguagem sobre abuso sexual não era comum na família de Amanda. Ela explica à BBC News Mundo que todos estavam “tão traumatizados por sua própria experiência com ele que nunca aprenderam a se expressar sobre isso ou tiveram as ferramentas para enxergar a situação de outra maneira”.
Amanda nunca usou palavras como “abuso” ou “estupro” em sua infância, apesar de saber que o comportamento do avô era “carinhoso demais ou assustador”. Foi somente após ser vítima de agressão sexual em seus 20 anos que ela adquiriu o vocabulário para entender e relacionar o ocorrido com sua história familiar.
“Comecei a me perguntar: como é possível que todas as mulheres da minha família tenham sobrevivido a isso?”, questiona Amanda, que viu nesse questionamento o gatilho para a realização do filme.
Flickinger era um cristão evangélico devoto, e a religião desempenhou um papel “realmente problemático” na dinâmica familiar. Conforme relatado à BBC News Mundo, quando surgiam questionamentos sobre o avô, a família era instruída a considerar que “isso é um assunto entre ele e Deus” ou que era dever respeitar os mais velhos.
Amanda aprendeu sobre o “desvio espiritual”, um termo que descreve a interpretação de valores religiosos para evitar lidar com traumas sombrios. A fé serviu tanto como mecanismo de sobrevivência para a família quanto como justificativa para o avô, que se “absolvia” dizendo que “a única coisa que tenho a fazer é perdoar a mim mesmo e estou bem com Deus”.
Aos 23 anos, após a morte de sua avó, Amanda sentiu a urgência de confrontar o avô. Ela, acompanhada pela mãe, o entrevistou com uma câmera, antes mesmo de decidir fazer o documentário. “Eu realmente não sentia que tinha outra alternativa”, afirmou à BBC News Mundo.
Durante a conversa, Flickinger admitiu ter “sempre teve essa atração por crianças” e que “não a entendia, não sabia o que fazer a respeito, que nunca se sentiu à vontade para falar com ninguém sobre isso”. Embora Amanda soubesse que ele “estava escondendo algumas coisas”, a admissão foi um “estranho presente de reconhecimento” para as vítimas.
“O fato de ele ter admitido o que fez foi um reconhecimento que pode ser absolutamente curativo”, ponderou Amanda.
O processo de fazer o filme foi terapêutico para Amanda. Ela recebeu inúmeras mensagens de pessoas que enfrentam situações semelhantes em suas famílias. “Naquele momento, eu era uma jovem jornalista e pensei: ‘Bem, eu posso confiar no processo jornalístico e em minha própria curiosidade para sair e chegar onde for preciso'”, relatou.
Amanda enfatiza que “castigar quem comete abusos não é a solução”. Ela acredita que a prevenção é possível, fornecendo recursos e criando espaços para que agressores busquem ajuda antes de cometer crimes. “Meu avô saiu da prisão e continuou cometendo abusos. Por isso, é urgente falar desse tema”, concluiu.
Para denúncias de exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil, ligue Disque 100. Em emergências, contate 190 (Polícia Militar) ou 197 (Polícia Civil). Mulheres vítimas de violência podem acionar a Central de Atendimento à Mulher pelo 180.