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Juiz de Fora: Tragédia Climática Anunciada? Alertas do Cemaden Ignorados e 42 Vidas Perdidas

Autoridades já tinham conhecimento dos riscos elevados de uma tragédia em Juiz de Fora (MG) devido às chuvas, inclusive em áreas que sofreram deslizamentos. Documentos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) apontavam para essa vulnerabilidade, mas a catástrofe não foi evitada. A cidade foi atingida por um temporal que deixou 42 mortos e ao menos 17 desaparecidos até a noite de quarta-feira (25/2).

Em 2023, o Cemaden identificou 1.942 municípios brasileiros com alto risco de deslizamentos, enxurradas e inundações, afetando 8,9 milhões de pessoas. Juiz de Fora se destacou como a 9ª cidade com mais habitantes em áreas de risco, com cerca de 129 mil pessoas, tornando-a a mais crítica no interior do país. Ubá, também afetada, tinha 7,4 mil pessoas em regiões vulneráveis.

A lista de cidades com mais pessoas em áreas de risco inclui Salvador (BA) com mais de 1,2 milhão, São Paulo (SP) com mais de 674 mil, Rio de Janeiro (RJ) com mais de 444 mil, Belo Horizonte (MG) com mais de 389 mil, e Recife (PE) com mais de 206 mil. Esses locais apresentam características de ocupação e urbanização propícias a desastres ambientais, segundo o Cemaden. Conforme Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, um desastre ocorre quando a chuva atinge população vulnerável em áreas de risco.

Chuvas Extremas e Solo Saturado Amplificaram o Desastre

Entre 17h de segunda-feira (23/2) e 5h de terça-feira (24/2), Juiz de Fora registrou 220 milímetros de chuva, superando a média mensal de 170 milímetros. A professora Cássia Ferreira, coordenadora do Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental da UFJF, explica que o solo já estava saturado por chuvas anteriores, tornando-o instável. A precipitação adicional de 220 milímetros levou a uma condição “mais derradeira”, onde o solo não suportou mais.

“Se a gente tivesse um processo de prevenção, esses ambientes talvez estivessem melhor monitorados. Poderia até haver (deslizamentos), mas isso poderia ser reduzido ou minimizado”, afirma Ferreira, ressaltando a importância da prevenção.

Alertas Ignorados e Vulnerabilidade Histórica

Juiz de Fora é a 4ª cidade com mais alertas emitidos pelo Cemaden, sendo os mais comuns de inundações e deslizamentos em encostas habitadas. Os alertas são enviados diretamente à Defesa Civil para auxiliar em decisões locais. Um documento de 2017 já indicava risco elevado de deslizamentos de rocha no Morro do Cristo, próximo ao centro, onde ocorreram deslizamentos sobre casas e prédios. O documento apontava 15 imóveis ameaçados e outras 79 localidades como áreas de alto risco.

Marcelo Seluchi explica que a vulnerabilidade de Juiz de Fora se deve à ocupação de moradias inadequadas em áreas de risco, como encostas e margens de rios. A supressão da vegetação nessas áreas remove um fator natural que retarda deslizamentos, deixa o solo mais firme e filtra a precipitação. A topografia da cidade, cercada por morros e localizada no vale do rio Paraibuna, força a população a viver “no fundo do vale ou na encosta”.

A urbanização das encostas, que começou com construções de melhor qualidade, avançou para a periferia com moradias de menor estrutura e condições, afetando principalmente a população de menor renda. “A grande maioria desses casos que aconteceram agora ocorreu exatamente onde havia moradias de uma população com uma renda mais vulnerável e que tinha menor capacidade de estar contratando o engenheiro para que ele pudesse auxiliar nas questões estruturais”, pontua Ferreira.

Falhas na Prevenção e a Necessidade de Ações Urgentes

Segundo Cássia Ferreira, a Defesa Civil da cidade não consegue dar conta de tantos alertas, atuando majoritariamente de forma paliativa após os desastres. Falta, na visão da pesquisadora, estruturação de um sistema de educação ambiental, instalação de alarmes e sirenes, e a criação de rotas de fuga. Marcelo Seluchi reforça a necessidade de a Defesa Civil estar mais bem preparada para lidar com a quantidade de alertas e a maior frequência de eventos extremos.

Seluchi defende uma mudança jurídica que permita a retirada de pessoas de áreas de risco, pois, atualmente, moradores podem se recusar a seguir as orientações da Defesa Civil. Ele também propõe planos de redução de risco, incluindo a possibilidade de realocação de bairros, como ocorreu em São Sebastião (SP) após as chuvas de 2023, além de fiscalização rigorosa e um plano diretor que impeça construções em áreas de risco.

Recursos do PAC e Atrasos na Execução

A lista de municípios em risco, encomendada pela Casa Civil, serve de base para ações prioritárias no Novo PAC. Juiz de Fora possui quatro projetos em andamento para prevenção de desastres, sendo três de contenção de encostas. Em 2012, a cidade recebeu R$ 40 milhões para obras em encostas. Atualmente, R$ 18 milhões estão previstos para a conclusão de obras do PAC. Em 2023, a prefeitura solicitou mais R$ 21 milhões para obras em três bairros, mas a verba ainda não foi liberada por pendências documentais.

Um novo projeto para encostas em Juiz de Fora, no valor de R$ 8,5 milhões, foi aprovado no PAC em dezembro de 2025. A Prefeitura de Juiz de Fora, o governo de Minas Gerais e a Casa Civil não responderam aos contatos da BBC News Brasil até a publicação desta reportagem.

Plano de Prevenção a Desastres Climáticos e a Urgência da Ação

O Ministério do Meio Ambiente tem defendido um plano de prevenção a desastres climáticos, impulsionado por tragédias como a de São Sebastião (SP) e as enchentes no Rio Grande do Sul. A ministra Marina Silva destacou a necessidade de “sair da lógica da gestão do desastre para a gestão do risco” e antecipar ações para preparar os municípios. Ela também ressaltou a importância de um regime jurídico para emergência climática em municípios suscetíveis.

Marcelo Seluchi prevê que eventos como o de Juiz de Fora se tornarão mais comuns no Sudeste e no litoral do Nordeste do Brasil, devido à complexidade da topografia e às áreas de risco. A professora Cássia Ferreira aponta a falta de continuidade nas políticas públicas como um problema, com governos “sempre correndo atrás desse prejuízo e não antecipando o prejuízo”.

As projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas indicam chuvas mais concentradas e intensas no Sudeste nos próximos anos, aumentando a frequência de eventos extremos. A última chuva de porte semelhante em Juiz de Fora ocorreu em janeiro de 1985. A previsão é que o “tempo de retorno” de situações extremas como essa seja menor com as mudanças climáticas.

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