Quatro soldados russos romperam o silêncio, compartilhando com a BBC testemunhos assustadores sobre as condições extremas enfrentadas na guerra da Ucrânia. Suas narrativas revelam um cenário de horror, incluindo execuções de companheiros por se recusarem a cumprir ordens e o envio de tropas para missões suicidas, conhecidas como ‘meat storms’.
Esses relatos, divulgados em um documentário da BBC, marcam a primeira vez que soldados russos da linha de frente falam abertamente às câmeras sobre a brutalidade interna do exército. As confissões detalham tortura, desumanização e a perda de companheiros em circunstâncias aterradoras, pintando um quadro sombrio da realidade para muitos combatentes.
As informações apresentadas pelos soldados corroboram dados sobre as violações da lei e da ordem na linha de frente russa. O governo russo, por sua vez, declarou que suas Forças Armadas operam com contenção e que quaisquer alegações de violações são investigadas, embora não seja possível verificar a precisão das informações de forma independente, conforme comunicado oficial.
Um dos soldados, identificado como Ilya, relatou ter presenciado a execução de quatro homens por seu comandante, que posteriormente foi condecorado como ‘Herói da Rússia’. Os militares foram mortos a tiros por terem fugido da linha de frente e se recusado a retornar. Ilya descreveu a cena com detalhes arrepiantes: ‘Eu os conhecia. Lembro-me de um deles gritando ‘Não atire, eu faço qualquer coisa!’, mas ele os zerou assim mesmo’.
O termo ‘zerar’, uma gíria militar russa, refere-se à execução de soldados pela própria tropa. Segundo os entrevistados, essa prática é frequentemente utilizada como punição por desobediência e serve como forma de intimidação para dissuadir outros de cogitarem o mesmo. O destino de muitos soldados, segundo Ilya, dependia diretamente das ordens do comandante, que podia ordenar o ‘corte’ de vidas sem hesitação.
Os soldados descreveram com detalhe as temidas missões ‘meat storms’, táticas que consistem no envio incessante de ondas de homens para desgastar as forças ucranianas. Essas operações são tão perigosas que se assemelham a missões suicidas. Dima, outro soldado entrevistado, explicou a lógica por trás dessa tática: ‘Você envia três homens, depois mais três. Não deu certo, manda dez. Não deu certo com dez, manda 50. Em algum momento você vai romper’.
A brutalidade dessas ofensivas é evidenciada por estatísticas. O Ministério da Defesa do Reino Unido estima que, em 2025, entre 900 e 1.500 russos foram mortos ou feridos diariamente na Ucrânia. Dima relatou perdas devastadoras em sua própria unidade, onde um regimento inteiro foi aniquilado em apenas três dias durante a primeira ‘meat storm’.
A recusa em participar dessas missões suicidas frequentemente resultava em tortura e desumanização. Ilya contou ter sido amarrado a uma árvore, espancado e ter sofrido humilhações, incluindo ter necessidades fisiológicas feitas sobre ele por seus superiores. Outros soldados relataram ter sido submetidos a choques elétricos, fome e enviados desarmados para a linha de frente após se recusarem a lutar.
Denis compartilhou vídeos que, segundo ele, mostram supostos desertores recebendo jatos de urina, descrevendo a prática como uma humilhação que se tornou norma no Exército Russo, apesar de ser ilegal. Ele também mostrou uma foto de seus dentes da frente, arrancados por um superior após ele questionar a busca por um drone desaparecido. A BBC não pôde verificar independentemente a autenticidade dessas imagens.
Todos os quatro soldados que falaram à BBC agora estão foragidos e fora da Rússia, mas carregam profundas cicatrizes psicológicas. Dima descreveu pesadelos vívidos com florestas cheias de cadáveres e rostos desfigurados, sentindo-se um ‘criminoso’ por não querer matar. Ilya expressou amor por seu país, mas não pelo que Putin fez com ele, afirmando que o sistema russo é capaz de ‘quebrar qualquer um’.
Esses depoimentos lançam uma luz sombria sobre a realidade enfrentada por muitos soldados russos, expondo um lado brutal e desumano da guerra na Ucrânia, longe dos holofotes da propaganda oficial.