Na reta final da campanha presidencial, os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL) têm sinalizado a seus eleitores a possibilidade de uma definição já no primeiro turno. Ambos têm repetido essa aposta em entrevistas e eventos públicos, buscando energizar suas bases e influenciar o eleitorado.
Lula, por exemplo, declarou em entrevista ao podcast Flow que acredita na vitória já no domingo, afirmando que a eleição “vai ser definida domingo”. Bolsonaro também tem falado em “contagem regressiva” para vencer no primeiro turno, citando uma “arrancada” rumo à vitória.
No entanto, a análise de cientistas políticos e os dados de pesquisas recentes sugerem um cenário mais complexo. Embora a possibilidade de um desfecho antecipado não seja descartada, a maioria dos especialistas aponta o segundo turno como o desfecho mais provável, com diversos fatores pesando contra uma definição imediata. As informações são baseadas em análises divulgadas pela BBC News Brasil.
Um dos principais argumentos para a possibilidade de um primeiro turno decisivo é o fenômeno do voto útil. Especialistas como Cila Schulman, CEO do Ideia Instituto de Pesquisa, observam que eleitores que não se identificam com os candidatos mais votados podem migrar para o candidato que julgam ter maior chance de vencer o adversário que rejeitam. Isso pode beneficiar tanto Lula quanto Bolsonaro.
Outro fator relevante é a rejeição elevada dos principais candidatos. Com ambos sendo figuras conhecidas e com altos índices de desaprovação, alguns eleitores podem optar pelo “menos pior” em vez de dispersar seus votos em candidatos com poucas chances de vitória. Hilton Fernandes, cientista político e professor da Fespsp, aponta que essa rejeição pode atrair votos de eleitores de candidatos menores.
A desidratação de candidaturas menores também contribui para essa percepção. Candidatos como Renan Santos, Augusto Cury e Ronaldo Caiado têm perdido espaço nas pesquisas, e seus eleitores podem ser atraídos para os polos da disputa. Essa migração, especialmente na última semana, pode concentrar votos nos dois principais concorrentes.
Por fim, uma alta abstenção, somada a votos brancos e nulos, pode influenciar o resultado. Se o total de votos válidos diminuir significativamente, a porcentagem necessária para vencer no primeiro turno se torna menor. Cila Schulman calcula que uma abstenção combinada com brancos e nulos entre 31% e 32% aumentaria as chances de uma decisão antecipada.
Apesar dos fatores que apontam para um possível primeiro turno, a maioria dos analistas considera o segundo turno o cenário mais provável. Um dos principais motivos é o volume de votos ainda concentrado em candidatos menores. Mesmo com a desidratação, o agregado de pesquisas da BBC News Brasil indica que esses candidatos somam cerca de 10% do eleitorado, o que representa uma fatia considerável que pode impedir que um dos principais candidatos atinja os 50% dos votos válidos.
A falta de entusiasmo com os candidatos principais também diminui o apelo do voto útil. Luciana Veiga, cientista política da Unirio, argumenta que escândalos envolvendo as duas candidaturas e a ausência de uma agenda que gere grande entusiasmo dificultam que eleitores se sintam motivados a garantir a vitória no primeiro turno a qualquer custo.
O chamado “teto de votos” de Lula é outro ponto observado. Sendo o único candidato de esquerda, sua margem de crescimento pode ser limitada, especialmente com a pulverização de votos que em 2022 estava mais distribuída entre Ciro Gomes e Simone Tebet. Uma melhora significativa de Lula nas pesquisas pode, paradoxalmente, impulsionar votos para Bolsonaro como forma de evitar sua vitória antecipada.
A diminuição no número de candidaturas em geral, que é o menor desde 2010, também pode impactar o comparecimento. Com menos candidatos a cargos proporcionais pedindo voto e mobilizando eleitores, o estímulo para ir às urnas pode ser menor, afetando a dinâmica geral da eleição.
Para entender a dinâmica do dia da votação, é crucial observar o nível de abstenção. Históricamente, a abstenção pode impactar de forma diferente as bases eleitorais de Lula e Bolsonaro. Além disso, o desempenho dos candidatos nos redutos eleitorais importantes, como São Paulo, Rio de Janeiro e estados do Nordeste, fornecerá pistas importantes sobre o resultado.
A judicialização do processo eleitoral também se apresenta como um fator de atenção, com um número recorde de interferências da Justiça. Independentemente do desfecho, essa questão pode gerar insegurança e questionamentos sobre a lisura do processo, especialmente em caso de contestações aos resultados das urnas, como aponta Hilton Fernandes.
A divulgação dos resultados começará a partir do fechamento das urnas, às 17h, horário de Brasília. Além dos totais de votos, analistas recomendam acompanhar o volume de brancos e nulos e o desempenho nos principais colégios eleitorais para uma análise mais completa do cenário.