Nas bancas de quadrinhos da antiga Iugoslávia, um personagem peculiar desbravava a exuberante Amazônia, cativando jovens com suas aventuras e um estilo de vida longe do politicamente correto. Mister No, o anti-herói criado pelo italiano Sergio Bonelli, sob o pseudônimo Guido Nolitta, tornou-se um fenômeno cultural, influenciando a percepção de um país distante e exótico para muitos.
Essa fascinação, que ecoa até hoje entre adultos nos países que emergiram da Iugoslávia, como a Eslovênia e a Sérvia, é um testemunho do poder das histórias em quadrinhos em moldar imaginários. Conforme aponta o fotógrafo esloveno Simon Plestenjak, para ele, as férias de infância eram sinônimo de Mister No e gibis. As aventuras ambientadas no Brasil, com sua floresta mítica e personagens cativantes, criaram uma imagem vívida e inesquecível.
O historiador e guia turístico sérvio Stefan Janković complementa, afirmando que Mister No, com suas imagens evocativas da Amazônia, moldou de forma decisiva sua percepção do Brasil. Ele descreve o país como uma fruta suculenta, cheia de sabor, quase impossível de ser totalmente apreendida.
Mister No, cujo nome verdadeiro é Jerome Drake Junior, ou Jerry Drake, teve sua jornada iniciada em Nova York. Ex-piloto na Segunda Guerra Mundial, ele retorna aos Estados Unidos com sequelas e decide buscar um novo começo em um local distante. Sua escolha recai sobre o Brasil, onde se estabelece em Manaus, passando a atuar como piloto e guia turístico.
Suas histórias, publicadas sistematicamente entre 1975 e 2006, transportam o leitor para o cenário da Amazônia das décadas de 1950 e 1960. A floresta, vista como um universo selvagem e mítico, torna-se o palco para as perigosas e emocionantes incursões de Jerry Drake. Seu pequeno avião Piper, com sua extrema manobrabilidade, permitia pousar em locais remotos, onde outros não chegavam, seja pela floresta densa ou pelos intrincados canais amazônicos.
O apelido “Mister No” surgiu de seu comportamento rude e teimoso, uma característica que o acompanhava em suas recusas a ordens e regras. Essa alcunha, segundo a narrativa, foi dada durante a guerra, quando sua resistência a um oficial japonês chocou o agressor. Essa postura de desafio e rebeldia se tornou uma marca registrada do personagem.
Em suas andanças pelo Brasil, Mister No conhece Otto Kruger, um ex-oficial nazista que também se autoexilou no país. Kruger, apelidado de Esse-Esse pelos brasileiros, torna-se seu fiel companheiro. As aventuras frequentemente os levam à cantina de Paulo Adolfo, onde Mister No é visto bebendo cachaça e cortejando mulheres, antes de se envolver em alguma encrenca movida por seu espírito generoso e rebelde.
Ele é impulsivo, e seus ímpetos de raiva são sua forma de reagir às injustiças do mundo. Mister No age contra a “lógica das coisas”, justificando seu costumeiro “não”. Como comenta o esloveno Plestenjak, ele é o “típico anti-herói”, que cativa justamente por sua humanidade e imperfeições.
As aventuras amazônicas de Mister No não foram criadas sem embasamento. Sergio Bonelli, o criador, era um profundo apaixonado pelo Brasil e visitou o país diversas vezes. Segundo o jornalista e pesquisador de quadrinhos Gonçalo Junior, Bonelli era meticuloso em conhecer o ambiente de suas histórias para conferir realismo.
Sidney Gusman, amigo de Bonelli e especialista no gênero, relata que o estúdio do italiano em Milão exibia fotos dele em excursões pelo Brasil, inclusive sem camisa em uma canoa. Bonelli chegou a possuir um jipe em Marabá para usar em suas expedições. Ele descreve sua paixão pelo país, chegando a cruzar boa parte da Amazônia de barco, da Venezuela ao coração da floresta brasileira.
“Ele realmente vivia algumas daquelas aventuras, aquelas experiências, para depois criar as histórias do Mister No”, afirma Gusman. Bonelli costumava brincar que suas idas a São Paulo e Rio de Janeiro eram apenas para eventos e amigos, pois seu verdadeiro prazer era estar na Amazônia e viver aventuras.
Na antiga Iugoslávia, os quadrinhos italianos, incluindo Mister No, tinham grande penetração no mercado. Uma editora estatal produzia as versões em servo-croata. Andrea Di Lecce, responsável pelos direitos internacionais da Sergio Bonelli Editore, sugere que o sucesso se deu pela forte tradição local de consumo de revistas em quadrinhos, aliada à periodicidade regular e longas séries oferecidas pela Bonelli.
O formato econômico, com miolos em preto e branco e papel de baixa gramatura, a distribuição capilar nas bancas e o caráter universal das histórias contribuíram para a popularidade. Di Lecce compara o gênero à “aventura popular”, distinto de narrativas localizadas como os comics americanos ou mangás japoneses.
O historiador Janković acredita que o apelo exótico da selva amazônica, talvez similar ao fascínio do faroeste para os brasileiros, tenha sido um fator crucial. Mister No, com sua complexidade moral, não era um herói “limpo”. Ele bebia, evitava responsabilidades e fracassava, carregando seu passado. Essa recusa em simplificar a identidade moral, segundo Janković, ressoou profundamente no público iugoslavo, que, culturalmente, estava mais aberto a lidar com a imperfeição.
A narrativa de justiça incompleta e vitórias comprometidas, onde a sobrevivência parecia acidental, encontrou um eco particular na Iugoslávia. Em contraste com culturas que exigem clareza moral, Mister No aceita a contradição humana e a confusão da vida, oferecendo uma visão mais honesta e menos idealizada. Para muitos jovens iugoslavos, Mister No representou o primeiro anti-herói, que defendia os oprimidos de forma direta, sem se prender a convenções. Ele matava, conquistava mulheres e bebia, características que o tornavam fascinante.
Inspirado pelas histórias de Mister No, o fotógrafo esloveno Simon Plestenjak realizou o sonho de infância e viajou pela Amazônia. Sua experiência, que começou em um barco de Belém a Manaus, o fez se sentir imerso nas páginas dos quadrinhos que tanto amava. Ele descreve a Amazônia como um lugar que precisava ser conhecido, um desejo que nasceu gradualmente.
O historiador sérvio Stefan Janković também realizou seu sonho de conhecer o Brasil. As primeiras impressões, moldadas pelos gibis, criaram uma imagem mental do país como um paraíso perdido e imperfeito, onde a vida é vivida intensamente. Apesar de ter visitado o Rio de Janeiro, Manaus permaneceu para ele um lugar abstrato, quase inalcançável, uma paisagem mais imaginada do que vivida.
Janković reflete que alguns lugares são feitos para permanecer inacabados, preservados como ideias, entre a memória, o desejo e o mito. Essa visão ressoa com a ideia de que a Amazônia, em sua essência aventureira e mítica, transcende a mera experiência física, mantendo seu encanto como um destino de imaginação.
Apesar de sua popularidade em diversos países, incluindo Bósnia-Herzegovina, Croácia, França e Sérvia, Mister No não obteve o mesmo sucesso no Brasil. O quadrinho foi publicado aqui, mas nunca alcançou o mesmo patamar de Tex, outro personagem da Bonelli. Gonçalo Junior atribui isso a uma falta de cuidado editorial e inconsistências nas publicações.
Sidney Gusman sugere que, enquanto Tex explorava o imaginário do faroeste, Mister No nunca se firmou plenamente no Brasil por razões difíceis de apontar, talvez pelo fato de as histórias ambientadas no país perderem o apelo exótico. Andrea Di Lecce complementa que Mister No é um personagem ligado a uma “sensibilidade europeia”, com um olhar externo sobre o Brasil, privilegiando aspectos simbólicos e aventureiros.
A proposta do personagem, filho dos anos 1970 e marcado pela figura do anti-herói, encontrou terreno mais fértil na Europa. No Brasil, o mercado popular na época premiava heróis mais tradicionais e sem mácula, como Tex. Assim, Mister No, com sua complexidade e ambiguidade, permaneceu como um ícone cult na antiga Iugoslávia, enquanto no Brasil sua jornada foi menos impactante.