A categoria dos caminhoneiros volta a dar sinais de insatisfação e ameaça paralisar as atividades em todo o país nos próximos dias. O principal motivo é a escalada nos preços do diesel, diretamente impactada pela guerra no Oriente Médio. Essa pressão surge em um momento delicado para o governo de Lula, que corre para anunciar medidas e evitar um novo caos logístico.
A situação é vista com preocupação por especialistas e pelo próprio governo, que teme os reflexos econômicos e políticos de uma nova paralisação. A lembrança da greve de 2018, que paralisou o país por 10 dias e enfraqueceu o governo da época, paira no ar, especialmente com declarações de que a categoria está “muito mais organizada”.
O presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, afirmou à BBC News Brasil que a organização atual supera a de 2018. A categoria alega que a alta dos combustíveis os impede de trabalhar, tornando a operação inviável. Conforme informação divulgada pela BBC News Brasil, o preço médio do diesel S-10 subiu 19,4% no país desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã.
Em resposta à ameaça de greve, o governo federal tem anunciado uma série de medidas para tentar conter a insatisfação dos caminhoneiros. Na semana passada, foram anunciadas isenções de PIS/Cofins, subvenções para produtores e distribuidores, além de impostos sobre exportação. No entanto, a Petrobras seguiu com um aumento de R$ 0,38 por litro do diesel A em suas refinarias.
O cenário se complicou ainda mais com a declaração da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) de que, mesmo com o reajuste, o preço do diesel ainda permanece abaixo do mercado internacional, indicando risco de novos aumentos. Essa instabilidade nos preços é um dos principais fatores que levam os caminhoneiros a considerar a greve.
Na quarta-feira (18/3), o governo intensificou seus esforços, anunciando novas iniciativas. O Ministério dos Transportes e a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) prometeram ampliar a fiscalização do cumprimento da tabela do piso mínimo do frete, uma das conquistas da greve de 2018, que a categoria alega não estar sendo respeitada pelas empresas.
Adicionalmente, foi proposta aos estados a desoneração do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a importação de diesel, com compensação de parte da receita pela União. O objetivo é reduzir o impacto da alta do combustível diretamente no bolso dos caminhoneiros e, consequentemente, dos consumidores. A categoria ainda avalia se as medidas são suficientes para evitar a paralisação.
As reivindicações dos caminhoneiros vão além da questão dos combustíveis. Eles buscam a implementação de um preço mínimo operacional e a isenção de pedágio para caminhões vazios. Wallace Landim enfatiza que a mobilização atual tem motivação puramente econômica, diferentemente de outros protestos recentes que tiveram conotação política. “A dor é econômica, como em 2018”, declarou.
A organização dos caminhoneiros é pulverizada, com diversas lideranças e entidades. Além da Abrava, o Sindicato dos Caminhoneiros de Santos (Sindicam) e a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) também apoiam a paralisação. A categoria lembra que a privatização da BR Distribuidora em 2019, durante o governo Bolsonaro, retirou da Petrobras o controle sobre parte da cadeia de combustíveis.
Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, alerta que o risco de uma greve de caminhoneiros com impactos negativos na economia é real, especialmente com a perspectiva de manutenção da pressão nos preços dos combustíveis. Ele observa que os caminhoneiros já enfrentam custos em alta, uma safra menor e uma economia em desaceleração.
“Esse caminhoneiro se ressente disso e traz aquele fantasma de maio de 2018”, lembra Vale, referindo-se aos impactos da greve anterior no PIB e nas eleições. O economista, no entanto, aponta que o espaço de manobra do governo é limitado devido a restrições fiscais, tornando uma paralisação pontual possivelmente inevitável, embora a magnitude da mobilização seja incerta. O mercado financeiro, por sua vez, reage com menor volatilidade, vendo a fragilidade do governo como um potencial cenário para ajustes fiscais futuros.