A Coreia do Sul amanheceu atordoada com a notícia da condenação do ex-presidente Yoon Suk Yeol à prisão perpétua. A sentença, proferida nesta quinta-feira (19/2), marca o desfecho de um turbulento capítulo na história do país, iniciado com a tentativa de Yoon de impor a lei marcial em dezembro de 2024.
A medida, que durou poucas horas, mergulhou a nação em uma crise profunda, evidenciando as acentuadas divisões na sociedade sul-coreana. A decisão judicial de hoje ecoa a vitória esmagadora da oposição nas eleições seis meses após o incidente, um claro reflexo do descontentamento popular.
Yoon, que já enfrentava uma pena de cinco anos por abuso de poder, agora é considerado o principal autor de uma insurreiçã o, um ato de revolta contra o governo estabelecido. As ações do ex-presidente em 3 de dezembro de 2024, incluindo a ordem para prender políticos e o envio de tropas para isolar a Assembleia Nacional, foram vistas pelo tribunal como uma tentativa de subverter a Constituição. As informações são do portal de notícias que cobriu o caso.
O tribunal de Seul determinou que as ações de Yoon em dezembro de 2024 configuraram uma tentativa de paralisar a Assembleia Nacional por um período considerável. A juíza presidente Ji Gwi-yeon, ao proferir a sentença, classificou Yoon como o “principal insurgente”. Os promotores, que haviam solicitado a pena de morte, descreveram o ex-presidente como “impiedoso”, argumentando que uma punição severa seria necessária para dissuadir futuros atos semelhantes.
Yoon Suk Yeol, por sua vez, defendeu suas ações como necessárias para proteger o país de “forças antiestatais” supostamente alinhadas à Coreia do Norte. Contudo, o tribunal e a opinião pública amplamente interpretaram sua motivação como uma tentativa de escapar de sua própria queda de popularidade, escândalos e da ameaça de investigações contra sua esposa por alegações de corrupção.
A tentativa de lei marcial e suas consequências legais dividiram profundamente a Coreia do Sul. Manifestações ocorreram tanto a favor quanto contra o ex-presidente, demonstrando a forte influência que Yoon ainda exerce sobre parcelas da sociedade. Mesmo após sua condenação, centenas de manifestantes se reuniram em apoio a ele, um sinal da polarização existente.
Alguns apoiadores, como o músico Oh Jung-hyuk, de 50 anos, afirmam que a lei marcial “abriu seus olhos” para o que consideram “forças de esquerda enraizadas” na sociedade. Essa visão se alinha com teorias da conspiração que ganharam força após a queda de Yoon, como a alegação de que o Partido Democrata, de esquerda, deseja a unificação com a Coreia do Norte. Essas teorias são frequentemente disseminadas por influenciadores digitais de direita.
Yoon Suk Yeol ascendeu à presidência como um novato na política, ganhando notoriedade como promotor no caso de corrupção que levou à queda da ex-presidente Park Geun-hye. Sua eleição em 2022 ocorreu em meio a uma disputa acirrada, com menos de 1% de diferença para seu rival, Lee Jae-myung. Ele atraiu eleitores jovens do sexo masculino com uma plataforma antifeminista, em um momento de crescentes divisões sociais.
No entanto, sua presidência foi marcada por gafes e polêmicas. Um exemplo notório foi seu comentário sobre o ex-presidente autoritário Chun Doo-hwan, a quem chamou de “bom na política”, e declarações consideradas ofensivas ao Congresso dos EUA. Apesar de alguns sucessos na política externa, como a melhora nas relações com o Japão, o maior escândalo envolveu sua esposa, Kim Keon Hee, acusada de corrupção.
A declaração de lei marcial foi amplamente vista como um “erro de cálculo político” e um “exagero legal”, especialmente considerando seu baixo apoio público e a falta de respaldo dentro de seu próprio partido e administração. A medida drástica, tomada em um momento de pressão crescente, resultou em seu impeachment e destituição em abril de 2025.
A condenação de Yoon Suk Yeol à prisão perpétua sela um capítulo sombrio para a Coreia do Sul. A crise desencadeada pela lei marcial levou à condenação de outros altos funcionários de seu gabinete, incluindo o ex-primeiro-ministro Han Duck-soo, que recebeu uma pena de 23 anos. O Partido Democrático, da oposição, consolidou seu poder com a vitória eleitoral de Lee Jae-myung.
Apesar da queda de Yoon, seu partido ainda mantém uma base de apoio significativa, que alguns argumentam ter se fortalecido devido à sua perseguição política. Os apoiadores de Yoon frequentemente ecoam narrativas de direita e teorias conspiratórias, acreditando que a declaração de lei marcial foi uma medida necessária para proteger o país. A Coreia do Sul, contudo, ainda se recupera das profundas divisões que eclodiram em dezembro de 2024, com as cicatrizes da crise ainda visíveis na sociedade.