Em meio a promessas de benefícios e salários competitivos, empresas de tecnologia nos Estados Unidos têm atraído talentos com um modelo de trabalho que exige dedicação extrema: a cultura 996. Essa jornada, que envolve trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana, totalizando cerca de 70 horas semanais, tornou-se um padrão em startups focadas no desenvolvimento acelerado de Inteligência Artificial (IA).
A Rilla, uma empresa de IA sediada em Nova York, é um exemplo emblemático dessa tendência. A companhia busca profissionais com características de ‘atletas olímpicos’, como ‘obsessão e ambição infinita’, dispostos a mergulhar em projetos desafiadores e a se divertir no processo, mesmo que isso signifique jornadas extenuantes.
Essa cultura, que se popularizou inicialmente na China com o apoio de figuras como Jack Ma, fundador do Alibaba, e Richard Liu, da JD.com, agora encontra terreno fértil em um cenário global impulsionado pela corrida armamentista da IA. A necessidade de inovar rapidamente e de superar a concorrência leva empresas a apostarem em longas horas de trabalho como diferencial competitivo, conforme aponta a BBC News.
A cultura 996 ganhou notoriedade na China há cerca de uma década, como parte de um esforço nacional para migrar de um polo de produção de baixo custo para um líder em tecnologia avançada. Figuras proeminentes do mundo dos negócios chinês, como Jack Ma, defenderam abertamente o modelo, considerando-o uma ‘enorme bênção’ e um reflexo da paixão pela carreira.
No entanto, essa abordagem não esteve isenta de críticas. Em 2021, a China intensificou a repressão legal contra práticas que desrespeitam as leis trabalhistas, em resposta a queixas generalizadas sobre excesso de trabalho e desrespeito aos direitos dos funcionários. Apesar disso, a cultura 996 persiste, embora de forma mais discreta, e encontra eco em outras partes do mundo.
Narayana Murthy, fundador da indiana Infosys, expressou admiração pela adoção do modelo pela China, argumentando que o desenvolvimento de nações e indivíduos está intrinsecamente ligado ao trabalho árduo. Essa visão ressoa com a mentalidade de muitas startups de IA que operam sob a pressão de capital de risco, onde a velocidade de lançamento de produtos é crucial.
A atual efervescência no setor de Inteligência Artificial é um dos principais motores por trás da adoção da cultura 996 por empresas americanas. A percepção de que o desenvolvimento da IA está ocorrendo em velocidade alucinante e que há um risco iminente de ser superado pela concorrência leva a uma busca incessante por produtividade máxima.
Empresas de IA, muitas delas startups financiadas por capital de risco, sentem a pressão de inovar e lançar seus produtos no mercado antes que os concorrentes o façam. Essa corrida contra o tempo é vista como justificativa para as longas jornadas de trabalho. Adrian Kinnersley, especialista em recrutamento, observa que empresas em busca de ‘desenvolver seus produtos e levá-los ao mercado antes que alguém o faça’ adotam a filosofia de que ‘se você trabalhar por mais horas, irá vencer a corrida’.
Magnus Müller, cofundador da startup alemã Browser-Use, que desenvolve ferramentas para IA interagir com navegadores, exemplifica essa mentalidade. Ele vive em uma ‘casa de hacker’, um espaço compartilhado de trabalho e moradia, onde a imersão em problemas complexos é valorizada. Müller acredita que longas jornadas são inerentes à construção de algo ‘difícil’ e que a competição acirrada exige dedicação total.
Apesar da retórica de paixão e dedicação, a cultura 996 levanta sérias preocupações sobre a saúde física e mental dos trabalhadores. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertaram, em um estudo de 2021, que longas jornadas de trabalho (acima de 55 horas semanais) foram responsáveis por 745 mil mortes por AVC e doenças cardíacas em 2016. Trabalhar mais de 55 horas semanais aumenta o risco de doenças cardíacas em 17% e de AVC em 35%.
Estudos indicam que a produtividade, após um certo ponto, começa a cair drasticamente com o aumento das horas trabalhadas. Uma jornada de 40 horas semanais é considerada o ‘ponto de equilíbrio’ para manter um bom desempenho. Ultrapassar esse limite leva a uma diminuição gradual do rendimento devido à fadiga e ao descuido com a saúde. A Universidade Estadual de Michigan sugere que um funcionário trabalhando 70 horas semanais pode ter um rendimento quase idêntico a um que trabalha 50 horas.
Apesar das evidências, a tentação de empregar menos pessoas e fazê-las trabalhar mais tempo persiste, pois cada novo funcionário representa custos de recrutamento, treinamento e salários. No entanto, essa estratégia pode ser contraproducente, levando ao burnout e à perda de talentos experientes, que muitas vezes podem ser mais produtivos com menos horas de trabalho, como aponta Deedy Das, sócio da Menlo Ventures.
Enquanto empresas de tecnologia nos EUA abraçam a cultura 996, outras nações buscam modelos de trabalho mais equilibrados. No Reino Unido, ativistas defendem a redução da jornada de trabalho e a adoção da semana de quatro dias, citando um projeto-piloto de 2022 que demonstrou redução de estresse e doenças entre funcionários, além de retenção de talentos e manutenção da produtividade sem corte salarial.
A legislação britânica, por exemplo, limita a jornada média de trabalho a 48 horas semanais, embora funcionários possam optar por trabalhar mais. Ben Wilmott, do CIPD, enfatiza a importância de trabalhar ‘de forma mais inteligente, não por mais tempo’, utilizando tecnologia e IA para aumentar a produtividade sem estender as horas de trabalho. Ele ressalta os riscos à saúde associados a jornadas prolongadas.
No Brasil, tramita no Congresso uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa acabar com a escala 6×1 e reduzir a jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais, um indicativo de que o debate sobre a duração da jornada de trabalho e seus impactos na saúde e produtividade está ganhando força globalmente.
Apesar das críticas e dos riscos à saúde, a cultura 996 continua a ser vista por alguns como um rito de passagem necessário para o sucesso, especialmente em setores de alta competitividade como a IA. A questão que permanece é se os benefícios de curto prazo dessa intensidade laboral superam os custos humanos e a sustentabilidade a longo prazo.