A bebida que embala conversas, comemorações e o cotidiano brasileiro tem uma trajetória rica e surpreendente. O chope, mais que uma simples bebida, é um reflexo da cultura e dos costumes que moldaram o país.
De citações em peças teatrais do século 19 a sucessos do rock nacional, o chope atravessou gerações, adaptando-se e conquistando seu espaço como um dos símbolos mais queridos do Brasil.
Mas como essa bebida, originária da Europa, ganhou um tempero tão brasileiro, especialmente o famoso “borogodó” carioca? Acompanhe esta jornada histórica e cultural, repleta de curiosidades e fatos pouco conhecidos. As informações são baseadas em reportagem da BBC News Brasil.
A história do chope no Brasil remonta a 1808, com a chegada da Família Real Portuguesa. Conforme explica Carlo Bressiani, diretor da Escola Superior de Cerveja e Malte, Dom João VI solicitou a instalação das primeiras cervejarias na Serra Fluminense.
O clima da serra era crucial, pois o calor do Rio de Janeiro dificultava o controle da fermentação na época. Naquele período, não havia distinção clara entre cerveja e chope, pois a pasteurização ainda não era amplamente utilizada na indústria de bebidas.
A pasteurização, que permite maior tempo de conservação, só se popularizou na segunda metade do século 19. Antes disso, a bebida tinha uma validade curta, limitada a cerca de um mês.
A palavra “chope” tem origem alemã, derivando de “Schoppen”, que significa “copo de cerveja”. Curiosamente, em alemão, o termo se refere ao recipiente, e não necessariamente à bebida em si. O mesmo ocorre em francês, onde “chope” indica uma caneca.
A primeira vez que o termo apareceu na imprensa brasileira, em 1875, foi no contexto de um prêmio em uma corrida de cavalos: um “chopp de prata dourada”, indicando o uso como substantivo comum para um objeto.
A produção de cerveja em larga escala no Brasil ganhou impulso com a chegada de migrantes alemães a partir de 1824. Em 1836, o Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, registrou a menção à “cerveja brasileira”, marcando o início da produção industrial.
Com o tempo, especialmente no Rio de Janeiro, o chope se transformou em centro de uma verdadeira subcultura. Bares tradicionais, como o Amarelinho na Cinelândia, orgulham-se de servir o “chope mais gelado da Cinelândia”, com serpentinas de cobre que garantem um “colarinho cremoso”.
O chope se tornou um convite ao bate-papo, ao lazer e à celebração. É associado a momentos de descontração, futebol, samba e à vida social brasileira. Essa conexão com o cotidiano é especialmente forte no Rio, onde o chope é parte de um estilo de vida.
A popularização e o acesso facilitado, especialmente após a Segunda Guerra Mundial e com a consolidação de grandes grupos cervejeiros, tornaram o chope uma bebida ainda mais presente no dia a dia dos brasileiros, consolidando seu status de bebida nacional.
A ausência de pasteurização no chope moderno é um dos fatores que contribuem para sua apreciação. Segundo Carlo Bressiani, “o chope sempre será mais saboroso do que a cerveja porque, em certa medida, é uma cerveja viva”, preservando mais nuances de sabor.
A preferência brasileira pelo chope “estupidamente gelado”, apesar de atenuar a percepção de sabor devido à vasoconstrição, é vista como uma forma de torná-lo uma bebida refrescante, ideal para o clima tropical.
Essa característica o diferencia do consumo em países do hemisfério norte, onde o chope é frequentemente consumido em temperatura ambiente. No Brasil, o chope compete com destilados e vinhos, destacando-se como uma opção refrescante e acessível, parte intrínseca da identidade cultural do país.