O renomado cantor espanhol Julio Iglesias, ícone da música latina com milhões de discos vendidos mundialmente, encontra-se no centro de uma grave investigação judicial na Espanha. Duas ex-funcionárias o acusam de agressão sexual e assédio, alegando que o artista, de 82 anos, “normalizou o abuso” em um ambiente de trabalho coercitivo e ameaçador.
As denúncias, inicialmente divulgadas pelos sites de notícias elDiario.es e Univision, detalham episódios que teriam ocorrido em 2021, nas propriedades de Iglesias em Punta Cana, na República Dominicana, e em Lyford Cay, nas Bahamas. O caso, que abalou o cenário artístico e midiático, já está sendo apurado pelo Judiciário espanhol, que investiga crimes cometidos fora do território nacional.
Representantes de Julio Iglesias, assim como o próprio cantor, não comentaram as acusações antes da publicação das reportagens. No entanto, uma gerente de uma das propriedades caribenhas do artista classificou as alegações como “absurdas”. A BBC News tentou contato com a equipe do cantor para obter um posicionamento, mas ainda não obteve retorno. Conforme informações divulgadas pelo elDiario.es e Univision, as acusações são embasadas por provas documentais, incluindo fotografias, registros telefônicos, mensagens de texto e laudos médicos, coletadas ao longo de três anos de investigação conjunta.
Uma das denunciantes, identificada como Rebeca, trabalhadora doméstica dominicana, relatou que era frequentemente chamada ao quarto do cantor ao final do dia e sofria toques inapropriados sem consentimento. “Ele me usava quase todas as noites”, declarou, descrevendo o sentimento de ser “um objeto, como uma escrava”. Rebeca, que tinha 22 anos na época dos fatos, também alega ter sido forçada a participar de relações sexuais a três com outra funcionária e que o cantor a agredia fisicamente, com tapas no rosto e apalpamento dos genitais.
A segunda acusadora, Laura, uma fisioterapeuta venezuelana, afirmou que Iglesias a beijou à força e tocou seus seios contra sua vontade. Segundo seu relato, o cantor a ameaçava constantemente de demissão, controlava sua alimentação e questionava sobre seu ciclo menstrual. Laura descreveu um ambiente de “abuso normalizado”, onde o cantor a chamava de “gorda” e a pressionava a emagrecer. Ela também mencionou que, embora tentasse rejeitar as investidas, havia outras funcionárias que “não conseguiam dizer não” e eram submetidas à vontade de Iglesias.
As duas mulheres apresentaram uma queixa judicial formal contra Julio Iglesias em 5 de janeiro, por agressão sexual e tráfico de pessoas, perante o tribunal nacional da Espanha. A ação legal busca responsabilizar o cantor pelos atos que teriam ocorrido em propriedades localizadas fora do território espanhol. A ministra da Igualdade da Espanha, Ana Redondo, expressou a expectativa de que o caso seja investigado “até o fim”, enfatizando que “quando não há consentimento, há agressão”.
Por outro lado, o escritor Jaime Peñafiel, amigo de longa data do cantor, classificou as acusações como “mentiras absolutas”. O jornalista Miguel Ángel Pastor, também próximo a Iglesias, declarou nunca ter ouvido “qualquer indício” de que o cantor pudesse ter cometido tais atos. A presidente da Comunidade de Madri, Isabel Díaz Ayuso, manifestou apoio a Julio Iglesias, afirmando que a região “não contribuirá para a difamação de artistas”.
O biógrafo de Iglesias, Ignacio Peyró, e a editora Libros del Asteroide anunciaram que a biografia publicada no ano passado sobre o cantor será atualizada para incluir as recentes acusações. Em um comunicado, eles expressaram seu “apoio e solidariedade às vítimas”. Este caso surge em um contexto de crescente visibilidade para denúncias de abuso sexual na Espanha, como a recente queixa contra o ex-primeiro-ministro Adolfo Suárez, falecido em 2014, cujas investigações policiais prosseguem.
A deputada Ione Belarra, líder do partido Podemos, pediu o “fim do silêncio” em casos de agressão sexual que envolvem “agressores famosos protegidos por seu dinheiro”, ressaltando a importância de dar voz e suporte às vítimas. O caso de Julio Iglesias reacende o debate sobre a responsabilidade de figuras públicas e a necessidade de combater a impunidade em casos de violência sexual, mesmo quando envolvem personalidades de grande alcance midiático e influência.