Carregando...

Médicos Acusados de Perseguição e Boicote por Posição Política: ‘Senti um Alvo na Minha Cabeça’

A polarização política brasileira parece ter extrapolado os debates públicos e invadido o ambiente médico, com denúncias de perseguição, exposição e até sugestões de boicote a pacientes e colegas por suas convicções eleitorais. Um anestesiologista de Sergipe, que pediu para não ser identificado, relatou à BBC News Brasil o choque de ter seu nome incluído em uma lista de profissionais rotulados como “Lulistas = esquerdistas = petistas” em um grupo privado de WhatsApp. A lista, que chegou a associar alguns nomes a bandeiras do movimento LGBTQIA+, gerou apreensão e levou o médico a buscar medidas protetivas e formalizar denúncias.

O caso expõe a tensão crescente nos corredores de hospitais e consultórios, onde divergências políticas podem estar se transformando em atos de discriminação e assédio. Relatos apontam para episódios que vão desde a exposição pública de preferências eleitorais até mensagens que incentivam o tratamento diferenciado a pacientes com base em seus posicionamentos políticos. A situação levanta sérias questões sobre a ética médica e a garantia de atendimento humanizado e sem discriminação para todos.

Essas denúncias, que também envolvem casos na Bahia e em São Paulo, com médicas acusadas de compartilhar publicações que sugerem boicote a eleitores petistas e um cardiologista do Einstein que teria declarado “Não atendo petistas vagabundos”, foram detalhadas pela BBC News Brasil. As investigações e apurações por Conselhos Regionais de Medicina e órgãos de saúde já foram iniciadas em alguns estados, buscando coibir tais práticas e reafirmar o compromisso da medicina com a ética e o respeito à diversidade.

Exposição e Ameaças em Grupo de WhatsApp Médico

O anestesiologista sergipano, que teve seu nome divulgado em uma lista de colegas considerados “esquerdistas”, descreveu a sensação de “sentir um alvo na minha cabeça” ao receber a informação. Ele relatou ter buscado o autor da lista para entender as motivações, mas a conversa teria se transformado em um embate com ofensas e gritos. Segundo o médico, a justificativa apresentada foi de uma “enquete informal”, mas ele questiona o propósito de identificar o posicionamento político de colegas de profissão.

A repercussão interna, segundo o profissional, tem sido significativa, com tentativas de minimizar a gravidade do ocorrido. Apesar de ter expressado apoio ao presidente Lula em suas redes sociais privadas e participado de caminhadas eleitorais, ele afirma ter evitado discussões políticas no ambiente de trabalho. Após a publicação da lista, o caso foi levado a um grupo institucional de organização de plantões, onde a postagem foi apagada. Temendo por sua segurança, o médico buscou a polícia e solicitou medida protetiva, além de ter formalizado uma denúncia à cooperativa médica responsável pelas escalas.

Cardiologista na Bahia Compartilha Postagem de Boicote a Petistas

Em outro caso, uma cardiologista na Bahia é acusada de compartilhar em seu Instagram uma publicação que sugeria “não ajudar petista na fila de regulação”, “não ajudar petista em pedido de emprego” e “não ajudar petista com remédio ou dinheiro”. A publicação original era de uma ex-candidata a vereadora ligada ao PL. Embora o texto não mencionasse explicitamente a prática médica, colegas interpretaram a referência à regulação e a medicamentos como um incentivo à discriminação política.

A denúncia foi formalizada ao Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB) e à Secretaria da Saúde do Estado. O perfil da cardiologista no Instagram foi desativado, mas, em nota, a clínica onde ela atua em Lauro de Freitas reconheceu o compartilhamento como um “equívoco” e lamentou a preocupação causada, afirmando que “não defende que qualquer pessoa seja privada de atendimento médico por seu posicionamento político” e reafirmando o compromisso com o cuidado humanizado e sem discriminação.

Casos em São Paulo, Espírito Santo e Goiás Elevam Preocupação

A onda de denúncias não para por aí. Em São Paulo, um médico do Einstein foi acusado de publicar ataques contra apoiadores de Lula, incluindo a frase “Não atendo petistas vagabundos”. O hospital repudiou a manifestação discriminatória e informou que o caso está sendo apurado. No Espírito Santo, o Conselho Regional de Medicina (CRM-ES) abriu sindicância para investigar uma médica que teria ironizado a alteração de prescrições de medicamentos para pacientes que não tivessem recursos para comprá-los, em alusão ao resultado eleitoral.

Em Goiânia, uma ginecologista foi afastada e demitida de um hospital municipal após mensagens em um grupo de WhatsApp sugerindo que colegas evitassem dar alta a pacientes durante o fim de semana do primeiro turno da eleição, pois “a maioria é petista”. O caso gerou investigação hospitalar e foi encaminhado ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego). A médica, em nota, afirmou que a mensagem em grupo privado não se traduziu em conduta inadequada e que nenhuma paciente teve a alta atrasada ou negada por preferência política, sendo todas avaliadas por critérios clínicos.

O que Fazer em Casos de Assédio Político na Medicina?

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reforça que o Código de Ética Médica estabelece a obrigatoriedade do atendimento em casos de urgência e emergência, sem discriminação de nenhuma natureza. Em situações de negativa injustificada de assistência, discriminação ou assédio político, a orientação é reunir provas, como mensagens, áudios ou vídeos, e formalizar denúncias aos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs). Dependendo da gravidade, o caso pode ser levado ao Ministério Público ou à Justiça comum.

A Lei nº 3.268/1957 prevê que os CRMs podem aplicar penalidades disciplinares que variam de advertência à cassação do exercício profissional. Entidades médicas defendem que divergências políticas não devem resultar em constrangimentos ou prejuízos profissionais, reiterando o compromisso da medicina com a ética, o cuidado humanizado e a assistência sem qualquer tipo de discriminação, independentemente do posicionamento político do paciente.

Related Posts

A fábrica parada em Témiscaming, Quebec, é um símbolo do impacto das tarifas americanas na economia ...
Leo Soares
01/11/2026
Entenda as Eleições de Meio de Mandato dos EUA e Seu Impacto no Governo Trump As eleições de meio de ...
Leo Soares
31/10/2026
Médicos Acusados de Perseguição e Boicote por Posição Política: 'Senti um Alvo na Minha Cabeça' A ...
Leo Soares
31/10/2026
Compare Listings