A postura de Flávio Bolsonaro (PL) durante o debate da Band, em 18 de outubro, gerou comparações imediatas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Nas redes sociais, usuários e analistas apontaram semelhanças nas expressões faciais e movimentos de cabeça do senador, além de sua presença constante no enquadramento das câmeras, muitas vezes posicionado atrás de seu oponente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Essa tática visual, que busca influenciar a percepção pública através da linguagem corporal e da ocupação do espaço, remete a um momento marcante da campanha presidencial americana de 2016. Na ocasião, Donald Trump circulou e permaneceu próximo de Hillary Clinton enquanto ela respondia a perguntas em um debate.
Embora não seja possível confirmar uma inspiração direta, especialistas em comunicação política identificam elementos de uma estratégia conhecida: usar a presença física e visual para comunicar significados, mesmo quando não se está falando. A estratégia de Flávio Bolsonaro em se manter visível e expressivo atrás de Lula pode ter o objetivo de manter sua relevância na mente da audiência.
Segundo Christopher Hart, linguista e pesquisador de comunicação política da Universidade de Lancaster, Reino Unido, existem paralelos claros entre os comportamentos observados. Hart, que estuda a linguagem corporal de Trump há anos, aponta que uma das principais funções dessa estratégia é garantir que o candidato permaneça no centro da atenção do público durante toda a transmissão.
“Ambos [Trump e Flávio Bolsonaro] vêm de uma espécie de perspectiva populista. E, portanto, podemos esperar ver elementos comuns em termos de performance. Vários líderes populistas ao redor do mundo já foram vistos copiando aspectos da performance de Trump”, disse Hart à BBC News Brasil. Ao se posicionar atrás do adversário enquanto ele fala, Flávio Bolsonaro, assim como Trump, participa do debate para além das palavras.
“Quando você se coloca no enquadramento, cria uma oportunidade para comunicar significados visualmente”, explica Hart. “De certa forma, você acaba ocupando mais tempo do debate porque consegue transmitir mensagens por meio de gestos e expressões. Mesmo quando a câmera está focada no adversário, a presença deles é sentida pelo público. Isso os mantém relevantes e na mente da audiência mesmo quando não estão falando.”
A força dessa estratégia, segundo Christopher Hart, reside na exploração de uma dimensão menos explícita da comunicação política. Em vez de apresentar argumentos, o candidato busca passar impressões. Um olhar de descrença pode sugerir que uma informação não é séria, enquanto uma expressão de impaciência pode transmitir a ideia de que as propostas do adversário são repetitivas ou ultrapassadas, tudo isso sem que uma palavra seja dita.
“Há algo quase petulante e infantil nesse comportamento. Mas uma expressão de tédio, por exemplo, também comunica algo muito maior”, afirma Hart. Ele sugere que, no caso de Trump, essas demonstrações sinalizam um aborrecimento com o estilo “antigo” de fazer política do adversário, posicionando-o como um elemento novo e com apelo populista. “Não posso deixar de me perguntar se algo semelhante está acontecendo no Brasil [com Flávio]”, avalia.
Christopher Hart também aponta que o posicionamento direto atrás do adversário pode ser uma tentativa de exercer pressão psicológica, um conceito estudado pela proxêmica, que analisa como o uso do espaço físico influencia as relações sociais. “Se você estivesse no lugar deles, se sentiria pressionado a falar ou a terminar logo”, diz Hart. “É uma tentativa de exercer poder e domínio, possivelmente, para que os adversários cometam um erro ou cedam a palavra antes.”
Para Hart, líderes políticos ao redor do mundo passaram a absorver elementos do estilo de comunicação de Trump após o sucesso eleitoral do republicano. Essa absorção não se trata de copiar gestos específicos, mas de incorporar formas semelhantes de ocupar o espaço público e chamar a atenção. A relação entre a família Bolsonaro e Donald Trump é antiga, marcada por admiração mútua e encontros públicos, o que pode ter influenciado a adoção de tais táticas por Flávio Bolsonaro.
Independentemente da intenção de Flávio Bolsonaro em emular Trump, o debate da Band foi marcado por fortes ataques entre os candidatos e um formato considerado “caótico” por analistas. Yuri Sanches, diretor de Análise Política da AtlasIntel, descreveu o início do debate como “nauseante”, criticando a falta de discussão de propostas e a predominância de ataques. Lucas Aragão, da Arko Advice, considerou o modelo “inútil para o eleitor indeciso”, pois favoreceu a ironia em detrimento das propostas.
No primeiro bloco, Flávio Bolsonaro foi ágil em questionar Lula sobre suspeitas envolvendo seu filho, Fábio Luí, enquanto Lula rebateu com questionamentos sobre negociações financeiras de Flávio. Aragão avaliou que Flávio conseguiu “pautar o debate”, levando Lula para assuntos de seu interesse, enquanto Lula não conseguia o mesmo. Yuri Sanches complementou, dizendo que Flávio teve “mais clareza nas falas” e articulou melhor seus ataques, enquanto Lula apresentou um desempenho “sem repertório” e “perdido”.
Nos blocos seguintes, com um formato mais controlado, Flávio Bolsonaro continuou dominando, na avaliação de Aragão. Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, considera que Lula se portou melhor, mas não houve um “claro vencedor”, e que o presidente não conseguiu “produzir um fato novo” para impulsionar sua campanha. Cortez observou que a postura “debochada e cínica” de Flávio Bolsonaro poderia afastar eleitores, mas ele se beneficia do desejo de mudança na sociedade.