Em meio às colinas do Tennessee, um projeto imobiliário promete mais do que casas, mas um estilo de vida alinhado a ideais conservadores. Josh Abbotoy, fundador da Ridgerunner, está desenvolvendo bairros que ele descreve como “comunidades baseadas na afinidade”, focadas em “fé, família e liberdade”. O conceito, no entanto, tem atraído atenção nacional e gerado preocupações entre moradores locais.
A iniciativa, que começou de forma discreta, ganhou destaque após reportagens revelarem as visões de alguns dos primeiros clientes de Abbotoy. Pastores e empresários que se autodenominam “nacionalistas cristãos” expressam ideias controversas, questionando direitos conquistados e defendendo pautas de deportação em massa. Essas declarações acenderam um alerta na pequena cidade de Gainesboro, onde o projeto está em andamento.
O embate em Gainesboro reflete tensões políticas maiores que se desenrolam por todo os Estados Unidos, especialmente em áreas rurais. Enquanto os idealizadores do projeto defendem a liberdade de associação e a busca por comunidades com valores compartilhados, moradores locais temem a imposição de ideologias extremistas e buscam proteger sua cidade de influências que consideram prejudiciais. Conforme informações divulgadas pela BBC News, a disputa em Gainesboro se tornou um microcosmo das batalhas políticas que moldam o futuro do país.
Josh Abbotoy, com formação na Faculdade de Harvard e sócio de um fundo de capital de risco conservador, idealizou a Ridgerunner com o propósito de criar espaços onde os moradores compartilhem valores fundamentais. “As pessoas querem viver em comunidades onde sentem que compartilham valores importantes com seus vizinhos”, afirma Abbotoy. Ele descreve o projeto como um retorno a princípios que considera essenciais, como a força da família e a liberdade individual, sob a égide da fé cristã.
O projeto prevê a construção de dezenas de lotes residenciais, com ênfase na vida rural e na presença de uma igreja. A empresa já adquiriu terras no Tennessee e no Kentucky, planejando a infraestrutura básica para as futuras residências. Cerca de metade dos terrenos já estão em processo de negociação, com previsão de que as primeiras casas sejam habitadas no início de 2027.
A polêmica em torno do projeto se intensificou com a mudança de figuras proeminentes do nacionalismo cristão para Gainesboro. Andrew Isker, pastor e escritor, e C. Jay Engel, empresário, ambos clientes da Ridgerunner, são figuras centrais nesse movimento. Eles transmitem suas ideias através do podcast “Contra Mundum”, incentivando seus ouvintes a se mudarem para comunidades pequenas e a buscarem influência política local para restaurar valores cristãos conservadores.
As declarações de Isker e Engel incluem questionamentos sobre o sufrágio feminino e o movimento pelos direitos civis, além de propostas de deportação em massa de imigrantes, superando até mesmo planos de figuras políticas como Donald Trump. Engel popularizou o conceito de “americanos por legado” (heritage Americans), que, embora ele negue ser estritamente racial, possui “fortes correlações étnicas”. Ele defende a saída de imigrantes, como “povos como os índios, do sudeste asiático, os equatorianos e os imigrantes africanos”, por considerá-los “menos capazes de se integrar”.
As visões extremistas dos novos moradores alarmaram parte da população de Gainesboro, uma cidade com cerca de 900 habitantes. Moradores locais, como Nan Coons e Diana Mandli, organizaram um grupo de resistência informal. “Acredito que eles estejam tentando rotular nossa cidade e nosso condado como sede da sua ideologia do nacionalismo cristão”, afirma Mandli, empresária local. Ela liderou protestos, com mensagens como “Se você for uma pessoa ou grupo que promove a inferioridade ou a opressão dos outros, por favor, coma em outro lugar.”
A resistência se manifesta em confrontos diretos, como quando dezenas de pessoas se reuniram em um restaurante local para confrontar representantes da Ridgerunner. Nan Coons relata conversas com Engel sobre a ideia de “voto familiar”, onde apenas o homem votaria em nome da família, excluindo as mulheres do eleitorado. Embora Engel tenha posteriormente declarado que não considera errado o voto feminino, ele mantém apoio à ideia do sufrágio familiar.
O nacionalismo cristão é uma visão de mundo complexa e multifacetada, sem uma definição única e consensual. Em suas vertentes mais radicais, defende a subordinação do governo a um líder religioso. Versões menos extremistas incluem a incorporação de leis cristãs em códigos legais americanos e o envolvimento de líderes religiosos na política. Essa ambiguidade estratégica, segundo especialistas, facilita a infiltração dessa ideologia na corrente principal.
A luta em Gainesboro, no entanto, não se limita à pequena cidade. Organizações como a States at the Core, financiada por grupos de esquerda, oferecem apoio aos opositores do projeto, buscando combater o autoritarismo em comunidades locais. Por outro lado, a Ridgerunner aponta essa ajuda como prova de que a oposição é orquestrada por liberais poderosos. Moradores como Nan Coons negam veementemente essa alegação, afirmando que a luta é genuína e local. “Ninguém me pagou para dizer nada”, declara Coons.
A batalha em Gainesboro espelha um conflito maior pela influência nas áreas rurais dos Estados Unidos. O Partido Republicano tem fortalecido sua presença rural, enquanto os Democratas buscam reverter essa tendência com investimentos em campanhas direcionadas a eleitores rurais. “E, paralelamente, houve uma onda de pessoas que se mudaram para pequenas cidades dos Estados Unidos, exatamente porque gostam do Cinturão da Bíblia, da cultura tradicional conservadora”, observa Abbotoy. Contudo, os opositores, como Coons e seus aliados, estão determinados a defender suas comunidades: “Se quisermos mudar esta tendência, é preciso começar pela sua rua, pelo seu bairro, pela sua pequena cidade”.