A maneira como escrevemos ou falamos pode, silenciosamente, revelar muito sobre nossos padrões de pensamento, sentimentos e como nos relacionamos com os outros. Uma pesquisa recente aponta que é possível identificar disfunções de personalidade, e até mesmo transtornos, através da análise detalhada do uso da linguagem. Esses padrões podem surgir antes mesmo de comportamentos mais explícitos se manifestarem.
Todos possuímos traços de personalidade, que são formas habituais de pensar, sentir e agir. Contudo, quando esses padrões se tornam excessivamente rígidos, intensos ou perturbadores, podem gerar dificuldades contínuas em diversas áreas da vida. Em casos mais graves, esses padrões caracterizam os transtornos de personalidade, que causam sofrimento e prejuízo significativos.
O estudo, publicado em diversas revistas científicas como o Journal of Personality Disorders e o Journal of Affective Disorders Reports, analisou milhares de textos e conversas. A pesquisa, conduzida por Charlotte Entwistle, pesquisadora na área de Psicologia na Universidade de Liverpool, no Reino Unido, sugere que a linguagem pode ser uma janela para o funcionamento interno de uma pessoa. Essas descobertas foram originalmente divulgadas pelo site acadêmico The Conversation.
A pesquisa identificou que pessoas com maior disfunção de personalidade tendem a usar uma linguagem mais centrada em si mesmas, com uso frequente de pronomes como “eu” e “mim”. Em textos sobre relacionamentos, por exemplo, a linguagem transmitia um senso de urgência e foco no indivíduo, com frases como “Eu preciso…” e “Eu sou…”.
Esses indivíduos também demonstraram maior uso de palavras negativas, especialmente aquelas relacionadas à raiva, como “furioso” e “irritado”. Simultaneamente, foi observada uma diminuição no uso de termos que indicam conexão social, como “nós”, “amor” e “família”, sugerindo um distanciamento emocional.
Em conversas e textos, a análise revelou um uso mais intenso de emoções negativas e uma variedade maior delas. Mesmo em interações banais, a linguagem carregava um afeto negativo mais pronunciado, indicando uma preocupação constante com sentimentos desagradáveis.
Em um estudo com postagens do Reddit, pessoas que se identificavam com transtornos de personalidade apresentaram uma linguagem marcadamente mais negativa e restrita. Suas postagens incluíam mais autorreferências, negações como “não consigo”, e termos de tristeza e raiva, além de um aumento no uso de palavrões.
Um padrão notável foi o uso de linguagem absolutista, refletindo um pensamento do tipo “tudo ou nada”. Palavras como “sempre”, “nunca” e “completamente” eram mais frequentes, indicando uma rigidez cognitiva e uma visão dicotômica da realidade.
Essas características linguísticas, em conjunto, criaram um quadro de sobrecarga emocional, negatividade, isolamento e pensamento rígido. A forma como as pessoas expressam suas crenças sobre si mesmas, especialmente em fóruns online, também difere significativamente, com maior foco em termos relacionados a saúde mental, sintomas e diagnósticos.
Compreender esses padrões linguísticos não tem como objetivo diagnosticar pessoas a partir de suas mensagens. A proposta é perceber mudanças sutis na linguagem que podem indicar que alguém está passando por dificuldades. Mensagens incomumente urgentes, extremas, emocionalmente negativas ou socialmente distantes podem ser sinais de alerta.
O reconhecimento de padrões de hostilidade, negatividade extrema e rigidez emocional e cognitiva pode auxiliar na identificação precoce de sinais em interações cotidianas, como em encontros amorosos, amizades e interações online. Isso é particularmente relevante para estilos de personalidade sombrios, como psicopatia ou narcisismo.
É importante ressaltar que nenhuma palavra ou frase isolada define a personalidade de alguém. O que realmente importa é o padrão ao longo do tempo, incluindo o tom emocional, os temas recorrentes e os hábitos linguísticos. Esses traços sutis oferecem uma janela para o mundo emocional, a identidade, os padrões de pensamento e os relacionamentos de uma pessoa, muitas vezes antes mesmo que ela se abra sobre suas lutas.